segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Conto: Fragmentos - Um

 (Delicadezas em tempos de Coronavírus - LXI)


Foi num sábado qualquer. Sem almoço ou café especiais. A rua estava envelhecida e extenuada assim como a casa onde viveu sua infância. Ele chegou como quem nada quer. Parou o carro. Olhou sem vontade de ver coisa alguma. Desceu. Em casa a mãe não disse palavras. Abriu-se num sorriso dela. Nada escancarado. Porém firme de si. Aquele filho sempre lhe fora especial assim como os demais. Saiu de casa ainda muito jovem. Voou. Trouxe orgulho para toda a família. Agora tenta trazer “Saúde e paz”.

(Será que alguém pode se dar ao luxo de desejar saúde e paz a quem quer que seja?

Por onde teria andando? Que fez de sua vida? Ganhou dinheiro? Ganhou fama? Onde estariam seus amores?)

- Bençoa mãe.

- Deus te abençoe meu filho.

Já dentro de casa, entra no quarto que lhe acolheu criança. Adentra o olhar. Seus olhos vagueiam no espaço vazio. Tenta ver o menino que ali viveu.

- Mãe, onde o pai gostava de senta depois do trabalho?

- Nem assentava. Jantava. Deitava e dormia. O trabalho exigia força física. Chegava cansado.

Então sentou-se em qualquer cadeira. Queria saber do pai. Como ele era. Por onde andava nos dias de folga. Como tratava os filhos. Como se dava com a mãe.

Resposta alguma ouviu dela.

- Que lembranças você tem dele? Foi a resposta pergunta da mãe.

Tomé não se lembrava do pai. Voltou pouco em casa depois que saiu. As lembranças da infância estavam anuviadas. Incertas. Tem na memória que a mãe não chorava quando o pai não aparecia para dormir. Nem dava explicações no dia seguinte. Ela não perguntava. Seu orgulho era maior. A rua sabia dos casos. Não alardeavam. Gostavam dele. Era um homem muito trabalhador. O demais não importava. Gostava de passarinhos. Trocava passarinhos. Vendia passarinhos.

- Mãe, você gostava do meu pai? Ele gostava de você? Não lembro de suas conversas.

Continuou com a mudez das respostas. Abaixou a cabeça. O corpo acompanhou o movimento. Calou-se. A mãe foi até a cozinha. Trouxe uma média de café num copo americano. Num pires colorido, de louça, trouxe bolinhos de chuva que fizera para as netas no dia anterior. Tinha açúcar e canela. Ele saboreou o bolinho com gosto. Entendeu o recado da mãe. Era preciso parar com aquela conversa.

O som da campainha interrompeu o ensurdecedor silêncio.

- Boa tarde dona Vera. Eu vi o carro do Tomé na porta e vim pedir uma benção pra minha filha. Ela está muito triste, calada. Sem ânimo até para brincar. Só emagrecendo. Tô muito preocupada.

Tomé inspirou fundo sem mover senão o peito. Continuou quieto na cadeira. Jamais esqueceria aquela voz.

- "Pode pedir que ela entre com sua filha."  Adiantou ele.

Logo viu o olhar de tristeza naquela vizinha que tanto amou. Perguntou o que estava acontecendo. Sorriu para a menina. Ofereceu um bolinho de chuva. A menina olhou. Aceitou o bolinho e esperou a benção. Tomé fechou os olhos. Colocou sua mão sobre a cabeça de Clara e ficou em silêncio.

Teresa tentava não olhar para o homem. Sabia pouco ou quase nada dele desde que haviam se separado ainda na adolescência. Raras cartas foram trocadas. Teresa havia se casado. Tinha duas filhas. O marido era um homem bonito, bem apresentado. Da vida de Tomé não soube dos estudos fora do país. Não soube das viagens pelo Brasil. Nem soube que havia se tornado um estudioso do evangelho segundo a doutrina espírita. Recentemente ouviu dizer que ele tinha o dom da palavra. “Ninguém nem pisca quando ele vem dar palestras”, ouviu de uma antiga amiga. 

A seguir Teresa agradeceu o passe. Mãe e filha saíram juntas.

Dentro de casa, mãe e filho continuaram calados. Ela não ousaria fazer perguntas. Ele não ousaria dar respostas. Desnecessário. Ambos sabiam as perguntas e as respostas. O silêncio falava por eles.

Já no final da tarde Tomé levantou e despediu-se da mãe.

Ela buscou o olhar dele.

- Meu filho, que muralha tão dura você construiu da fragilidade de seus olhos! Não viu o amor do seu pai. Não viu Teresa. Escute o que você fala nas suas palestras.

Tomé pediu a benção. Entrou no carro.

No caminho parou e desceu. A lua cheia nascia sobre a serra. Sentiu o peso dos anos. Sentiu a direção tomada na vida. O eco das palavras da mãe cortava sua carne. A dor era insuportável.

Sabia do muro que construíra para proteger-se do medo daquele grande amor. Só não sabia que o mesmo muro iria separá-los para sempre.

Não dormiu aquela noite.



Maria do Rosário N. Rivelli

31/10/2012

Dia das Bruxas

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