quinta-feira, 30 de junho de 2016

Das Dores



   Quisera o Senhor seu Deus que a vida lhe desse tantos filhos. A mulher, magrela por natureza e judiada pela vida, jamais havia virado uma lua desde aquela primeira noite após seu desdito casamento na roça. Bem que houvera um almoço para os padrinhos. Muitos frangos foram sacrificados para o servir. As galinhas a mãe deixou para os ovos. O macarrão tivera muito araticum colhido no terreiro e também cheirava a alho. O arroz ainda da última safra fora socado no velho pilão, herança dos avós, pais de seu pai. Mas fora o tutu, cheio de linguiças e cebolinhas verdes que o pessoal mais gostou.

   Maria ainda lembra, com o coração despedaçado, daquele dia tão distante no tempo e nos acontecimentos. Logo no primeiro ano nascera sua filha. As mulheres parteiras foram chamadas assim que a água morna lhe escorrera no meio das pernas. Com seus quinze anos, ela pouco entendia daquilo. A mãe não faltara. Viera de longe para aquele lugar sem fim. Carecia de estar perto da filha por aquela mudança de lua. As cólicas não passavam. Amiudavam. Aumentam de dor. Na casinha feita de pau e bambus entrelaçados com barro e coberta de sapé os homens esperavam lá fora. Era lua cheia. No terreiro um clarão provocava sombras que bruxuleavam naqueles gritos e lamentos que ecoavam de dentro da casa.

   Era o último dia do ano de 1969. O nascer daquela criança estava atrasada. Deveria de ter nascido na lua nova. Duas luas atrasadas não poderia ser um bom sinal. Já era madrugada do primeiro dia da nova década e nada. Só os gritos de horror de Maria que não conseguia se fazer mãe. Em torno da cachaça dos homens, as mulheres rezavam o terço até o rosário com seus mistérios dolorosos e gloriosos. De vez em quando vinha um prato de broa ou um biscoito de polvilho para enganar a dor do estômago e distanciar por uns minutos aquele sofrimento que agora já era de todos.

   Acabaram as palavras, as broas, a cachaça e as dores. Ao nascer do sol nasceu também o filho tão esperado de Zé Cortiça. Ao anunciar que era uma menina viera o desgosto. O pai saiu para a ordenha do leite. Nem se interessou por conhecer a filha. Espalharam-se os amigos. A  avó não tivera dúvidas. Maria das Dores seria o nome em homenagem a Nossa Senhora das Dores que trouxera sua neta ainda com vida.

   Com o passar do tempo a menina não desenvolvia. Mamava pouco e chorava muito. Passado alguns meses viram que a menina tinha poucos olhares e não ganhava no peso e nem nas respostas. Demorou para andar. Demorou para falar. A chegada do irmão no ano seguinte proclamou de vez seu retrocesso. Antonio nascera sem trazer tantas dores para Maria. Mamava como um bezerro e crescia como um bezerro. O pai não parava de falar daquele filho bendito.

    Maria emprenhava entre uma colheita e outra do milho para o gado e o fubá. Os filhos homens não paravam de nascer. Seriam a ajuda que o pai tanto esperava para a lida do sítio. O gado crescia em reprodução e número tanto quanto seus filhos. Necessário era mais mãos para o trabalho.

  Chegou o tempo de  Maria das Dores ir para a escola. Para vergonha do pai foi chamado à direção no final do ano. A menina não aprendeu a ler. "Ela não dará em nada. O senhor leva ela embora e cuida dela em casa porque aqui não tem lugar para ela". O pai voltou para casa com Das Dores andando a dois passos atrás dele. Ela repetia seu andar. Parecia uma sombra. Sem vida própria. A mãe, prestes a ter seu sétimo filho, entristeceu. Das Dores era uma menina doce e calada. Era sua companhia diária dentro de casa, na bica com as panelas e as roupas ou ajudando a cuidar dos irmãos que não paravam de nascer.

   Nos tempos de nascer seu décimo filho, a mãe fora atendida nos seus dois pedidos a Nossa Senhora do Bom Parto. Nascera uma linda menina que viera quase escorregada das entranhas da mãe. Mais uma vez a avó intercedeu e deu o nome de Maria das Graças. Maria gostou do nome da menina.

  Antonio, Joaquim, João Batista, Vicente, Paulo Neto, Luiz,  José Filho e Expedito gostaram da irmã nascida tão bonita. Eram filhos cada qual do seu jeito. Tunico, que ainda não tinha quinze anos, era o mais velho e Ditinho, o mais novo, ainda não fizera dois anos. Era o tempo do amamentar e o tempo do gestar para novo filho chegar àquela casa. O pai lhes construíra um catre reforçado de madeira nobre e ali dormiam os menores. Os mais velhos se ajeitavam em esteiras no chão frio de terra batida.

   Das Dores crescia entre eles. Ficava para trás nos aprendizados e nos passeios à cidade em dias de missa e festa. Cuidava da casa. Cuidava do almoço do pai e levava seu café da tarde com quitandas no meio da roça. O pai olhava para ela com pensamentos misturados de dó e raiva. "Por que Deus foi me dar uma menina que não serve pra nada?" Não agradecia aquele trabalho dela e já lhe mandava voltar para casa. Havia muito o que fazer e a mãe teria por aqueles dias seu décimo primeiro filho.

   A menina grande voltava para casa sem se dar conta da vida. Era só trabalho e alegria.

   Nascera outra filha sob as bençãos de Nossa Senhora. Era antevéspera do dia oito de dezembro. A menina chegou chorando e esfomeada. Desta vez a mãe escolhera o nome: Maria da Conceição. A avó aprovara. Mas um sangramento descabido começara a aparecer depois que os restos da filha tinha saído. A parteira anunciou gravidade do caso. Era melhor levar para a cidade e chamar o doutor. O cavalo fora arriado para a charrete e a esposa colocada deitada sobre uma arrumação de colchas e cobertores.

   O doutor examinou. Deixou-a internada naquele hospitalzinho da cidade que muito já salvara de vidas. Chamou o marido. "Sua esposa está com anemia. Deve ficar em repouso por uns dias. Seria aconselhado que ela não tivesse mais filhos. Ela está muito fraca". Zé escutou sem escutar. Voltou para casa e viu Das Dores chorando escondida atrás da porta. "Cala a boca menina que sua mãe ainda não morreu".

   Antonio e Joaquim já haviam ido para São Paulo. Diziam que não queriam aquela vida do pai. Os filhos menores não ajudavam o bastante preciso na roça. Maria tinha que melhorar logo para fazer seus serviços de dona de casa.

   Uma vizinha levou Das Dores para ver a mãe que já havia melhorado e voltava para casa.

   E dois anos depois nascera Maria Luzia no dia da santa protetora dos olhos. Dia 13 de dezembro. Todos da cidade já eram seus compadres e comadres. Resolveu então chamar o padre para ser padrinho da menina. Preparam um almoço com frango e macarrão e fizeram o batizado. Após os doces de leite e figos, era o tempo deles, o padre pediu uma palavrinha ao novo compadre. Falou do número de filhos e que Deus já estava satisfeito com ele e sua esposa. Era preciso cuidar da saúde de Maria. Zé Cortiça ouviu calado e nunca mais fora à missa.

   E em julho do outro ano depois do próximo nascera Tomé, no dia dedicado ao Santo. E nesse mesmo mês João Batista e Vicente voltaram com Antonio que viera ver a mãe. Maria das Graças que acabara de virar mocinha se enrabichou por um forasteiro que vendia colchas de seda e fora embora.

   Maria continuava apenas servindo ao marido como prometera nas cerimônias religiosas do casamento. Não tinha outros quereres. Desobedecendo as orientações do médico e das amigas parteiras engravidou de novo.

   Das Dores continuava ali, a lavar, a cozinhar e assar broas e fritar biscoitos e a querer o olhar do pai. Agora já adulta nas idades mas ainda pura na vida.

   E no dia doze de outubro, vinte e sete anos depois daquele sofrimento de seu primeiro parto, Maria, que já vinha inchando as pernas e sentindo fortes dores de cabeça, não aguentou o dia esperado para o nascimento daquele seu filho. Mandou das Dores chamar a mãe e a parteira e se entregou a um sono profundo. Fora levada ao hospital com acessos, se debatendo no carro novo de um compadre. A criança nascera viva. A mãe falecera. A menina fora dada à mulher de Tunico, em São Paulo, que lhe dera o nome de Karine. Nome estranho pensou Zé.

   Das Dores não fora levada ao velório da mãe. A vizinha quis poupar-lhe o desgosto. Esta então passou a procurá-la pelos pastos. Dizia que os urubus iriam comer sua mãe. Assim como acontecia com o gado quando morria de morte por doença. Nada tirava dela a ideia do desaparecimento do corpo da mãe.

   Maria das Graças só soube do acontecido no ano seguinte quando seu marido passou por aquelas bandas vendendo cobertores. Chorou, às escondidas, de si mesma.

   Maria da Conceição foi-se ajeitando no lugar da mãe revesando seus afazeres de casa com os cuidados aos irmãos mais novos 

   Zé Cortiça ficou na paradeza. Não tinha rumo. Os amigos deram opinião de nova esposa. Ele queria apenas sua Maria. Das Dores ficava olhando a tristeza do pai e trazia café. Era só desgosto. Um dia resolveu ir a missa. Ouviu o padre dizer que havia tempo de plantar e tempo de colher, tempo de chorar e tempo de sorrir. Voltou para casa e decidiu voltar à vida. Arou a terra seca. Semeou o feijão e o milho. Deu ordens na casa e esqueceu de suas dores.

   Das Dores passou a cuidar da casa com esmero. Fazia as quitandas para o café do meio dia e levava para o pai.

   Um dia Das Dores pediu para ajudar com a enxada e, para surpresa do pai, a menina grande mostrou capacidade e interesse no trabalho da lavoura.

  E a cada ano era um filho que ia embora. Não tinha noticias deles. Ficou sabendo por filhos de compadres que uns filhos seus viraram gente mas outros caíram em desgraça.

   Maria da Conceição casou e foi a derradeira a deixar a casa. 

   Zé chorou naquele dia do casamento da filha.

   Sobrou Das Dores e seu descompromisso com a vida.

   E num domingo após a missa, voltando para casa com seu caminhar vagaroso, olhou e viu a sua sombra. Era Das Dores. Então chorou e agradeceu ao Senhor Jesus Cristo aquela filha tão permanentemente criança. Entendeu que precisava viver para cuidar dela. Entendeu também que se ele morresse sua sombra deixaria de existir.

  Então suspirou fundo e pegou a mão da sua filha. 

06/06/2016

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