quinta-feira, 16 de junho de 2016

Crônica: Da série " Bonitos em Bonito III"


                             Terceiro dia


   A programação, mais uma vez ditada por minha filha, começaria às seis horas da manhã com nosso café recheado de frutas, pães e uma infinidade de guloseimas. Fiquei na salada de frutas e o meu sempre café com leite e pães variados. Deveríamos chegar ao local estabelecido às sete horas uma vez que nosso grupo seria o primeiro para aquela visitação.

   A recepção feita por uma simpática e muito jovem nissei que foi logo explicando acerca do trajeto de 970 metros aproximadamente, por entre a vegetação de transição entre o cerrado e a mata Atlântica. Veríamos o "Buraco" por dois mirantes construídos para tal fim. Falou que ali era uma fazenda de gados. Mas o proprietário, Sr Modesto, percebeu que poderia transformar aquele tão perigoso buraco para o gado em atração turística uma vez que já vinha muito gente para conhecer o " seu buraco". Durante o curto percurso ela mostrou-nos algumas espécies nativas como o famoso tronco do angico- branco cuja casa lembra a pele de um jacaré, as cagaiteiras e tantas outras diversidades daquela rica flora regional. Ali era o município de Jardim, bem próximo a Bonito.

   Então eis que nos aproximamos do tal buraco. Imediatamente meu coração disparou e meu olhar se perdeu diante de tanta magnitude, de tanta beleza e de tantas questões. O que é isto? Como se deu tal formação? Quem descobriu isto?

   Estávamos a margem de uma dolina, formação geológica, com quinhentos metros de circunferência, cem metros de diâmetro e cento e seis metros de profundidade, o equivalente a um prédio de dez andares. Meus olhos não paravam de contemplar aquele trem que mineiro algum jamais sonhara em ver por suas terras. Algumas árvores ao redor e poucas delas nas paredes em linhas retas até o fundo onde, num lago esverdeado, os famosos jacarés do papo amarelo vivem comendo uns aos outros uma vez que não há outros alimentos. Talvez alguns mamíferos que inventam de descer ou de cair ali.

   E foram nestes imensos paredões que as araras encontraram os lugares perfeitos para procriarem pois não há predadores que cheguem até lá.  Ainda tivemos a sorte de ver, através de binóculos, uma casal de araras com seus filhotes colocando suas caras para fora do ninho a nos presentear com tal espetáculo.

   Entretanto tal beleza emudeceu-me. Todos os meus sentidos foram colocados nos olhos e no coração.

   Então a  japonesinha nos convidou para continuarmos nosso caminho até o outro mirante, no lado oposto da circunferência do buraco. De lá ela nos contou histórias do imaginário popular acerca daquela dolina descoberta em 1912 e eu lembrei do imenso Titanic que naufragara naquele mesmo ano. Pensei que aquele buraco seria ainda mais belo que o navio. 

   Ali teria servido como cemitério a céu aberto para os desafetos do bandoleiro Silvino Jacques que colocava-os de costas e os mandavam correr pois iriam atirar balas neles. Os pobres coitados corriam direto da morte para a morte.

  E como aqueles jacarés foram parar ali? Perguntei.

  A resposta viera da nissei a brincar conosco dizendo que a fêmea estava com ciumes do macho, ao redor do buraco, e ameaçou pular no buraco. Talvez por descuido acabou caindo lá e o marido pulou também gritando "ah diaba eu vou atrás de você até no inferno". E viveram felizes para sempre no fundo daquele buraco. "Histórias do Sr Modesto" nos disse ela. E foram muitas histórias de bandoleiros, da carcaça de uma Brasilia tirada lá de dentro do fundo quando uma mega expedição da marinha (ou corpo de Bombeiros?) descera de rapel para explorar o buraco. Além de tirarem vários ossos humanos de, talvez, vinte e uma pessoas.

   E eu escutara de Alda Lucia, a minha bela cunhada, por mais de uma vez:  " e eu que nem botei fé nesse passeio de hoje. Nossa isso daqui é muito lindo". No seu sotaque misturado de mineira do sul e de paulista do interior.

  Na volta paramos próximo a algumas araras que vieram beber água nos bebedouros devidamente colocados para elas, em pontos mais elevados das árvores no entorno do buraco já que há o risco delas serem devoradas pelos jacarés caso voem até o lago. Então nossa guia relatou-nos que, na semana anterior àquela, uma jiboia escondeu-se dentro do coxo d'água e quase devorou uma arara. A gritaria com os socorros de outras araras ecou num som exasperador por toda região. A jiboia não voltou mais. E eu, morrendo de medo, voltei procurando as danadas das jiboias por todo o resto do caminho.

   Depois de meus olhos verem tamanho buraco e rara beleza o passeio da tarde num balneário de várias piscinas naturais e muita água apequenou-se. Entretanto assistir aos exímios nadadores, entre eles meu jovem sobrinho, disputando com os dourados o nado contrário à forte correnteza, na piracema, foi um show a parte. Uma ilha aninhada de árvores e pássaros, muitos quiosques, uma caipirinha dividida e muito cansaço encerraram o passeio. 

   Voltamos mais cedo para o hotel e fui explorar a imensa piscina que mais lembrava um lago cercado por pedras. E então nadei e mergulhei muito. Eu ainda estava sob os efeitos do "Buraco das Araras". Aterrorizante e belo. Assustador e sedutor. Inimaginável e real.

  Amanhã nosso ultimo dia será na Gruta do Lago Azul ao amanhecer e depois rumamos de volta para nossas Minas Gerais.

  Até então.

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