quinta-feira, 9 de junho de 2016

Crônica: " Bonitos em Bonito II"

  Nosso pacote de "turistas ecológicos" neste dia incluía flutuação na Nascente Azul e "Keda d'água". Lá fomos nós em mais uma manhã de um café delicioso. Gosto de acordar em hotéis só por causa desses cafés regados a frutas e muitas variedades de pães. Adoro pães e padarias. A chegada havia sido marcada para as sete horas. Nosso grupo seria o primeiro. Logo que chegamos foram dadas as orientações iniciais acerca da trilha: "jamais sair do caminho" demarcado pela longa passarela de madeira. Caso caísse algum objeto fora desta demarcação, o guia deveria ser comunicado e só ele poderia apanhar o que caiu. Eu fui logo pensando que debaixo daquela madeira, deveria haver muitas cobras pois trata-se de lugares perfeitos para o descanso permanente delas.


   E qual não foi nossa surpresa já nos primeiros cinquenta metros ao nos depararmos com uma maravilhosa cascata com várias quedas d'água como se fosse um bolo redondo cobertos por espumas brancas a descerem as camadas do mesmo. Chantili líquido e esvoaçante.

  Vestimos aquelas roupas pesadas de mergulhadores  e caminhamos até a tal Nascente Azul. Durante o trajeto o jovem guia, nascido e criado naquela região, deu-nos explicações acerca de como funcionaria nossa flutuação. Deveríamos respirar lentamente pelo esquisito do "snorkel", aquele canudo que fica na nossa boca e sobe até acima do nível da água. Não deveríamos encostar em nada que estivesse no fundo do leito do rio para que o calcário depositado no fundo não turvasse a água transparente. 

   Explicou-nos que a nascente ficava a sete metros de profundidade e que mergulhássemos até lá para vê-la. Eu e meu medo fomos juntos. Sempre segurando em um cabo de aço guiador. Minha irmã mais velha que eu demonstrou espírito aventureiro e aceitou ajuda do guia que, com muito carinho e atenção, levou-a para ver aquela água azul brotando da terra branca. Jamais esquecerei aquele espetáculo. Ali nasce o Rio Formoso.

   Agora era só descermos o rio flutuando e respirando pelo canudinho. Até me acostumar, aceitei ir segurando num pé do jovem biólogo guia pois noutro pé estava minha irmã. Mas tão logo acalmei minha respiração soltei-lhe o pé e flutuei sozinha rio abaixo dividindo as águas com centenas de peixes coloridos.

   Meu sobrinho de dezesseis anos deu show de mergulhos e flutuações com minha filha. Ficaram fotografando tudo debaixo d'água. E ele submergiu com classe e pose para fotografia.

   Agradeci ao guia o aprendizado daquela manhã e segredei-lhe que fui nadadora por vinte e dois anos em piscinas mas jamais havia me aventurado em rios ou lagoas. Nem no mar. Tenho pavor de não conseguir sintonizar respiração com braçadas. O que sempre fiz e faço com tranquilidade. Mas não fora das bordas de uma piscina. Ele me devolveu o agradecimento dizendo que fora um prazer ter me possibilitado tal desafio e também segredou que todos chegam ali exibindo suas performances e desrespeitando as normas e orientações e se arriscam. Ficamos quites.

   No espaço de apoio, ao devolvermos nossas roupas negras de mergulhadores, tudo dentro das normas de higiene e segurança, deparamos com o próximo grupo e uma desagradável  situação. Uma mulher da minha idade esbravejando contra o fato de ter que vestir aquela roupa molhada, apertada e que fora usada por outros antes dela. "Se eu soubesse que era assim tinha comprada uma só para mim". E continuou lamurienta e desqualificando o trabalho daqueles jovens entusiastas defensores da natureza. Tive que segurar minha filha para que não falasse o que a outra precisava ouvir. Ela ainda há de aprender a elegância de uma viagem compartilhada.

   Voltamos para o ponto de partida e fomos fazer reconhecimento de toda aquela área rodeada por águas, vegetação belíssima e muitos pássaros. Explicaram-nos que o bioma dali é de transição do cerrado com a mata atlântica. Com muita riqueza de espécies da fauna e da flora. Não almoçamos neste dia. Os atrativos eram muitos e não queríamos perder nosso precioso tempo. Minha irmã logo descobriu uma cascata e fora lá. Meu irmão não dispensou a cerveja. Minha bela cunhada, seu filho e minha filha foram para a gigantesca tirolesa com queda em um deslumbrante lago. 

   Eu fiquei sem cerveja e sem cascata.  Fiquei tomando decisão de me atirar naquela tirolesa. Mas ela era muito alta. A lagoa deveria ser muito funda para receber o impacto da queda. Então coloquei colete salva-vidas, subi as escadarias da plataforma, desci dependurada naquela corda e me deixei cair no mundão de água. Experiência fascinante. Repeti a façanha. 

   Depois descobri a tal cascata ali mesmo ao redor da lagoa. Estava escondida pela vegetação. Deixamos que a forte queda d'água batesse nos nossos ombros. Pedi que aquelas águas levassem todo o peso que tenho colocado sobre mim. Saí dali aliviada.

   Pegamos o carro e a próxima aventura fora "descer rio abaixo" em várias quedas d'água dentro de pequenos barcos infláveis. E a cada queda abrupta tínhamos que fazer estranhas posições dentro do barco e segurar com destreza as alças nas bordas das laterais. Uma menina acabou caindo mas logo fora socorrida. A corajosa mãe também pulou para ajudar no salvamento. Elas ficaram muito assustadas. Muita emoção. Parecia cenas do filme "Rio Selvagem" com a talentosa Meryl Streep. 

   De volta à simpática cidade de Bonito já prontos para mais aventuras. As piscinas do hotel foram a próxima parada. Quente ou frias, cobertas ou descobertas, grandes ou pequenas. O melhor é que estávamos uns com os outros.

   Já que não tínhamos almoçado resolvemos que iríamos jantar e tivemos sorte na escolha do local. Um belo restaurante especializado em peixes. Logo na entrada o som de uma harpa paraguaia tocando velhas músicas regionais destes dois países cuja história o Brasil ainda se ressente dela. Meu irmão comprou um CD gentilmente oferecido pelo harpista. E eu o ouço, às vezes, na minha solidão.

   De volta para o hotel porque amanhã teremos o " Buraco das Araras" pela manhã e um balneário a tarde.

Boa noite.

Um comentário:

  1. Lindo conto,saudades dessa viagem maravilhosa, este conto e fez viver tudo isso de novo!

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