segunda-feira, 15 de abril de 2019

Carta aos Familiares de um Homem Desaparecido

Funil, Mário Campos, 15 de abril de 2019

Prezados Familiares de José Odilon

Uma chuva mansa começa a cair na região onde moro e com ela as lembranças tomam novo colorido.

Desde à tarde do domingo, dia 7 último, tenho estado com vocês. Meus olhos iniciaram numa viagem  incessante e meus pensamentos foram  junto numa louca tentativa de encontrar Odilon.

Não o conheci senão quando as palavras já vinham perdendo os sentidos e os verbos não eram mais significativos de ações. Apenas um belo sorriso iluminava sua face. Entretanto sua história, contada em versos e prosas por Selma, me encheu de uma grande admiração por este homem que, certamente, esteve muito além de nosso tempo, seja enquanto psicólogo, ambientalista ou idealista. 

Sei que não há o que dizer nestas horas. Há que estar ao lado. E, ao lado de vocês, nestes dias que passam rápidos e nestas horas que demoram séculos, estamos centenas de pessoas. Pessoas desconhecidas que, sentindo suas dores, dão-se as mãos e também procuram-no por todos os cantos. 

Queridos Familiares e Amigos, penso que Odilon foi em busca dos tempos perdidos, como Marcel Proust nos escreveu a fim de "alcançar a substância do tempo para poder se subtrair de sua lei, a fim de tentar apreender, pela escrita, a essência de uma realidade escondida no inconsciente 'recriada pelo nosso pensamento' ”.

Ou, quem sabe, foi se encontrar com alguns de seus inúmeros pacientes que lhe deixaram lembranças acolhedoras. Talvez tenha ido a Andréquicé se entrever com seu amigo, o vaqueiro Manuelzão para, numa prosa sertaneja, caminhar ao lado de Guimarães Rosa e viajar no lombo de um burro pelo sertão das Minas Gerais.

Selma e Familiares ainda nos anos oitenta me dediquei ao estudo das demências quando já vislumbrávamos um futuro sombrio para a população brasileira que começava a ter um aumento significativo na expectativa de vida. Ainda eram raros e pouco diagnosticados os casos da Doença de Alzheimer. Logo depois comecei a atender, em meu consultório, alguns casos que chegavam trazidos por familiares. Posso afirmar que, diante de cada caso com diagnóstico confirmado, eu chorava no depois. E, depois, fui aprendendo com os familiares e cuidadores, a doce missão de viajar de volta no tempo com nossos portadores de Alzheimer.

De uns tempos para cá tenho falado que a mãe natureza é sábia por demais,pois, através de uma doença tão drástica, nos dá uma segunda chance para vivermos de novo todas as nossas dores e nossos amores.

E continuemos a procurar o caminho de volta junto a José Odilon.

Abraços respeitosos

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