sábado, 19 de setembro de 2020

Crônica: Que encantos tem aquela blusa?

 

(Delicadezas em tempos de Coronavírus - XXVI)



Mariângela abriu uma das portas do seu guarda-roupas. Várias blusas, vestidos, saias, calças compridas e écharps, dependuradas numa variação de cores e modelos. Abrindo espaço entre elas seus olhos foram imediatamente convocados por uma das peças.

Teria ido procurar um creme, talvez seu desodorante preferido, um brinco ou algum objeto para limpeza e cuidado das unhas? Já nem se lembrava mais o porquê de ter escancarado aquela parte do guarda-roupas.

Mas, despretensiosamente, fixou os olhos naquela blusa. Então uma enxurrada de lembranças lhe chegou através dela.

Quando e onde teria comprado aquela blusa? Não lhe vieram quaisquer lembranças. Mas, com certeza, teria sido um amor à primeira vista. Corte e costuras perfeitas. Tecido leve e em cores ao mesmo tempo fortes e discretas. Poderia usá-la em dias de temperatura mais baixa ou em noites mais frescas. Parecia que a blusa fora feita sob medida para Mariângela.

Tirou o cabide e viu que havia poeira nos ombros da mesma. Nesta pandemia não saiu de casa e, portanto, não usou nem lavou a mesma. Rodou o cabide e voltou com ele e a blusa para o local de antes.

Neste momento um barulho do lado de fora chamou sua atenção. Correu o olhar na direção e ainda pode ver o voo de uma ave grande bem perto da janela do seu quarto. Caminhou até o quintal e viu outro voo. Eram dois jacus que pousaram nos galhos do enorme pé de ipê no terreno do vizinho. Seria um casal? Mariângela ficou ali por alguns instantes. Sempre que via aquela ave se reportava ao “Café Jacu” com sua história de preservação da natureza e agricultura com sustentabilidade.

Estava já escurecendo. O sol acabava de se por bem a sua frente num belo espetáculo. Ela voltou para dentro de casa e seus pensamentos voltaram a viajar em companhia da blusa.

Na foto com as colegas do curso de pedagogia, num evento bienal de aniversário de formatura, noutra cidade, levou a blusa e usou-a no jantar. Ainda vê as fotos e percebe o quanto ela e a blusa formaram um visual bonito.

Numa outra ocasião Mariângela recebeu o telefonema de um antigo namorado enquanto trabalhava no primeiro turno de uma das escolas. Nesta ocasião estava se divorciando do marido e sofria muito, pois até então, nem desconfiava que ele já estivesse com uma namorada bem mais jovem que ela. Talvez, naquele dia, tenha vestido a blusa como sua companheira de leveza e combinação. Sentia que a blusa lhe deixava menos só.

-“Estou na sua cidade. Vim resolver questões administrativas do Banco. Gostaria de te ver. Seria possível?”.

E logo ele chegou. A blusa presenciou um afetuoso encontro. Ele lhe falou do seu trabalho junto à gerência bancária e depois quis saber como ela estava. Trocaram telefones pessoais e combinaram novos encontros.

Mariângela e a blusa sentiram-se, por alguns instantes, que tudo havia valido a pena – nesta hora riu sozinha e lembrou-se do poeta português, Fernando Pessoa.

Outra feita, uma amiga lhe telefonou e lhe convidou para uma “happy hour”, após o trabalho, com as “Espaçosas”, apelido carinhoso que haviam se dado. Eram sete amigas de longa data, supervisoras pedagógicas na mesma cidade. Mais uma vez a blusa lhe vestiu naquele dia. Elas riram, brindaram os sucessos de uma, as desventuras de outra, a separação de uma, o novo namorado da outra, os problemas nas escolas de cada uma, e tantos outros casos. E mais uma vez a blusa lhe fizera ficar bem nas fotos.

Mariângela hoje, enquanto aguarda o fim do isolamento imposto pela pandemia ao Coronavírus, decide lavar a blusa, perfumá-la e esperar pelo próximo encontro ao acaso. E sabe que sua blusa continuará sendo sempre sua fiel testemunha pela vida afora.

19/09/2020


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