segunda-feira, 4 de março de 2019

Crônica: Carnaval de um jovem sonhador



                                  *
Ele concluiu que estava na hora de se afastar das pessoas, das redes sociais, dos acontecimentos políticos que, segundo ele, caminhavam para uma verdadeiro retrocesso de conquistas sociais do seu tão querido país, Brasil. Precisava voltar aos estudos, afinal seu doutorado caminhava a passos lentos e o tempo não pára. Era necessário dar um rumo às suas ideias e colocá-las no papel. Decidiu fazer um retiro neste carnaval. Não queria um refúgio compartilhado nem religioso. Queria mesmo trancar dentro de si, trabalhar e produzir os argumentos para sua tese. 

E lá se foi o jovem para o sítio de um amigo que, ao contrário, optou pela folia de BH. Levou "O Adolescente", obra prima de Fiódor Dostoiévski, que ganhara recentemente da namorada. Sabia que iria precisar de outras leituras além dos vários livros de sociologia, filosofia, direito, política, etc. Seu trabalho deverá discorrer sobre as relações sociais contemporâneas num mundo globalizado que caminha na contra-mão dos direitos humanos. 

Passou num supermercado. Comprou frutas, pães, queijos, café e duas garrafas de um bom vinho argentino.  

Na manhã do primeiro dia alimentou-se muito bem. Abriu seus livros e retomou suas leituras. Chegou a sentir uma grande vontade de escrever e ler, e ler e ler mais. E assim o fez.

Por volta das treze horas decidiu por um almoço bem simples: feijão, arroz integral com muito alho e cebola, ovos fritos no bacon. Não sabia lidar com os legumes e verduras. Na verdade tinha preguiça nas escolhas e nos preparos deles. 

Almoçou bem. Tudo como havia preparado. Uma banana caramelizada com canela para a sobremesa. Pensou em deitar um pouco para relaxar e voltar aos estudos. Mas antes se deu ao direito de ver algumas mensagens e ver como estava seu perfil no Facebook. Buscou suas músicas preferidas e arriscou outras delas. Então deparou com a belíssima canção de Chico César "Estado de Poesia" quando ele escreve e canta:

"...Chega tem hora que ri de dentro pra fora
 Não fica nem vai embora
 É o estado de poesia
 Para viver em estado de poesia
 Me entranharia nestes sertões de você

 Para deixar a vida que eu vivia..."

O moço logo sentiu seu coração palpitar mais forte e lágrimas brotaram dos seus olhos. Já não se aguentava mais com esse 2019. Seus ideias sociais, seus sonhos de um país soberano, grandioso e livre esvaiam-se com a nova política. A ética e a moral que tanto estudava e pregava transformavam-se em ódio e incitações à violência. Não queria acreditar no que via nas postagens dos "amigos virtuais". 

A morte tão prematura e dolorosa do pequeno Arthur, neto do ex-presidente Lula, havia sido a gota d'água para que ele se refugiasse da folia do carnaval. Chorou muito naquele dia. Tinha certeza que chorava pela criança, por seus pais, pelo avô, pelo Brasil e, sobretudo, por si mesmo. 

Nem havia se refeito dos mortos em Mariana, da lama tóxica que matou o rio Doce; dos assassinatos da vereadora Marielle e  Anderson, seu motorista; do incêndio que destruíra partes da riqueza histórica do país; dos mortos  e desaparecidos em Brumadinho, das cenas dantescas da lama assassina; da impunidade dos crimes; da morte do seu querido rio Paraopeba; dos ataques de ódio escancarados em rede nacional; das medidas provisórias nas caladas das noites retirando direitos conquistados  pelos trabalhadores e tantos outros desatinos. 

Pensava em sair do país. Vivia com uma bolsa de doutorado de uma universidade federal ao conquistar o primeiro lugar  numa disputada seleção. Ainda se angustiava com a possibilidade do governo deixar de pagá-la. Mas não! Decidiu ficar aqui, trabalhar e lutar como brasileiro que é. 

Agora, isolado e sozinho, ele chora com seus livros abertos sobre a mesa. Ele sabe onde podemos chegar com a incitação nada velada ao ódio e o amor cego à ignorância. O fascismo começou assim mesmo e ele bem sabe disto. 

Ele que nascera  em finais do regime militar, que estudara acerca daqueles tempos sombrios, que ainda na adolescência a mãe lhe presenteara com os livros "As Veias Abertas da América Latina" do uruguaio Eduardo Galeano e " Batismo de Sangue" de Frei Beto, agora se via desamparado.

Resolveu então fechar seu notebook, voltar às suas leituras, restaurar suas forças físicas e intelectuais para as lutas que se aproximam. E ele sabe que lutar será preciso.

* Pintura de Gisele batista ( Conselheiro Lafaiete - Minas Gerais)

04/03/2019

Um comentário:

  1. Boa tarde!
    Belíssimo texto.
    Gentileza gera Gentileza.
    Seus destaques brancos me remetem Paz e deveria também ser pintadas nos muros. Também estou num "Sitio" com meus livros e fora das redes sociais. Fugi do Carnaval e dos posts carnavalescos diante destas catástrofes de 2019. Escrevi um no meu blog e como sabe de mim. Gostaria que o lesse. A música, a pintura e as palavras de sentimentos pela nação viram letras humanas e tolerância neste nosso país onde encontro pessoas como nós e o avô.
    Abraços.

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