quinta-feira, 14 de março de 2019

Amores contados: ...que falta ele me fez.

   Foto: Bruxelas  

Ela bem que tentou dar continuidade ao namoro. Ele econômico nas palavras, como era seu costume, apenas enviou uma mensagem dizendo que não estava bem. Precisava de um tempo para si. Ela chorou sozinha por aquele amor que julgava para sempre. Chorou também pelo tempo dedicado ao namorado. Foram quase dez anos. Agora, já com seus trinta anos, chorava também com receio de não encontrar um novo amor. Começar tudo de novo; talvez não tivesse mais forças.

Depois de algumas semanas, ainda apaixonada mas sem importuná-lo com pedidos de reencontros, resolveu viajar. Com férias vencidas no trabalho numa grande empresa de cosméticos pediu para que as mesmas lhe fossem concedidas. Arrumou uma viagem para outro país e para lá se foi.

Dentro do avião conheceu um homem cujo destino era o mesmo seu. Conversaram sobre filosofia, política e amores perdidos. Obviamente que, naquele instante, visse nele sua tábua de salvação. Agarrou-se nela. Estava salva.

Na Bélgica, combinaram de saírem juntos. Pelas ruas de Bruxelas se encantaram com as histórias, as flores, os riachos, a arquitetura. Almoçavam nas praças do centro histórico da cidade ou nos finos restaurantes do conjunto das famosas e luxuosas Galeries Royales Saint-Hubert. No final de semana foram para a cidade medieval de Bruges, capital do estado de Flandres Ocidental. Os vários canais com seus barcos, sua construções medievais, seus castelos, suas igrejas e todo o colorido das flores deixaram Teresa esquecida do recente desfeito amor.


  Foto: Bruges (Bélgica)

E naqueles dez dias de viagem ela, sendo formada em direito, aproveitou para conhecer a cidade holandesa de Haia, sede do Tribunal Internacional de Justiça. Foi até lá sozinha. Sentia um grande peso apertando seu peito. Logo se deu conta que a liberdade lhe doía por dentro. Mesmo assim andou pelas ruas históricas da cidade. Procurou um café e, quando se viu, estava diante de um bar cubano. Ali estava um charmoso Café Havana. Sorriu sozinha aliviada daquele estranho peso. Agora estava acompanhada de toda a alegria do povo cubano. Havia lido, ainda na sua adolescência, acerca da colonização da ilha e os rumos políticos mais recentes. Gostava dela como se gosta de uma terra natal. 

Tomou seu café. Passeou pela decoração do bar. Sorriu sozinha ao entrar no banheiro e ver a identificação: uma típica cubana estampada numa das portas. Voltou leve para o hotel.

Mas o tempo da viagem acabou e a moça voltou para casa. Retomou sua rotina no trabalho. Estranhou que não recebesse nenhum telefonema ou mensagens do seu acompanhante de viagem e dos passeios turísticos. Porém recebeu flores e um bilhete de agradecimento pelos "dias maravilhosos" que passaram juntos. Era casado e havia ido para o exterior decidido pela separação. De volta havia repensado e retomou seu casamento. De novo ela chorou. Nem mesmo sabia porque chorou tanto.

Apesar do trabalho, dos amigos, dos familiares, de novas viagens, nada demoveu dela aquele amor que havia vivido nos dez melhores anos de sua vida. Continuava apaixonada pelo homem que lhe fez mulher. Não conseguia odiá-lo. Sabia do tanto que ele também gostava dela. Mas não sabia o que havia acontecido para o afastamento dele. Neste caso o tempo não havia sido um bom conselheiro. Ela não tinha dúvidas de que seria para sempre. Sendo assim foi reconstruindo no seu imaginário o seu amado. Conversava com ele no silêncio que a cada dia se prolongava mais. Via que tudo em torno a levava até ele. A cor de um carro. O nome de uma cidade no painel de um ônibus. Um sorriso qualquer numa calçada qualquer. Entretanto nem percebera que aquele homem esteve apenas dentro de si. Ela o havia criado para não estar só. Agora estava nas mãos de sua criatura. Então adoeceu de amor.

As amigas, que acompanhavam toda aquela mudança, decidiram que estava passando da hora de Teresa procurar ajuda psicológica. Escolheram alguns nomes e forçaram-na pelo tratamento.

- "Eu não tenho nada a dizer e nem vou deitar naquele divã que fica me olhando do lado de lá da sala." 

Neste tempo ela já havia iniciado suas idas a um psicanalista que ela mesma escolhera. Não suportava mais tanta dor.

Nos primeiros meses saía chorando de dentro do consultório e dizia que não voltaria na próxima semana. Não deixou de ir a nenhuma sessão. Tão logo percebeu o que estava lhe acontecendo. E isto trazia-lhe mais angústia. Até que um dia, caminhando pelas ruas teve o tal de "insight": o homem que amava era tão só um outro que não aquele com quem ficara por dez anos. Aquele ela desconhecia. Chorou muito diante do entendido.

E agora? 

Determinou a não deixar de amá-lo. Ele fazia parte dela. Eram um só. 

Mas aos poucos Teresa foi se envolvendo com outros afazeres. Voltou a sair com as amigas. Passou a ir mais vezes ao cinema. Fez pequenas viagens. O sorriso voltou a aparecer. Aceitou o convite de um colega de trabalho para um jantar.

As sessões de psicanálise continuavam semanalmente.

Depois de alguns anos começou a ficar triste. Era uma tristeza bem diferente. Sem perceber havia enamorado da sua própria solidão. Passou a comprar mais livros. Ir ao cinema sozinha. Até decidir sair da casa dos pais e ter seu próprio apartamento. Estava já com seus trinta e cinco anos. Não havia se interessado por outros homens.

Um dia percebeu que algo havia mudado dentro dela. Apavorou com os pensamentos que ora lhe vinham à cabeça. Era isto! Ela havia desconstruído o homem por quem tanto amou. Restou apenas aquele de fato. 

Então constatou o vazio deixado na sua alma. A existência dele era sua própria vida. E, portanto, a falta dele configurava sua morte em vida.

Não chorou. Apenas decidiu que fazia-se a hora de se reinventar. Caminhou leve pelas ruas da cidade. Entrou numa loja de roupas. Olhou-se no espelho e viu uma bela mulher.


14/03/2019 

Obervações: 1- Um ano do assassinato de Marielle e Anderson Gomes - Quem os matou?

                     2- As fotos são de feitas por mim. 

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