segunda-feira, 25 de março de 2019

Crônica: Angu doce frito


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Na primeira manhã de outono, ainda bem cedo, sai de casa. Após atravessar Betim, Contagem e Belo Horizonte pela BR Fernão Dias, subir o anel rodoviário em direção à BR 040 e viajar quase que totalmente no automático, cheguei a Ouro Branco. É ali que, às vezes no final da tarde, passeio com meu netinho pela feirinha semanal dos pequenos produtores rurais da cidade. Nesta quinta-feira, de novo, saboreamos o delicioso mingau de milho verde "com muita canela né vovó?".

E, após conseguir negar o convite "vovó dorme aqui na minha casinha" saí para Lafaiete aonde cheguei por volta das vinte e duas horas. Viajar pela Estrada Real me leva de volta a muitos outros tempos.

Nesta semana cismei em fazer angu doce, deixá-lo esfriar de um dia para outro e fritá-lo no dia seguinte. Adoçado com rapadura, é claro. Como sempre acontece ficou apenas na vontade. Precisaria do fubá de moinho d'água, do fogão a lenha e de uma boa rapadura. Até que conseguiríamos tudo isto. Entretanto, nos dias atuais, estaria faltando o imprescindível de faltar: a meninada impaciente para esperar o angu cozinhar e para rapar o caldeirão de ferro deixado no terreiro. Ainda fritarei este meu "angu doce frito" na banha de coco da lata branca e verde da cozinha da minha mãe.

Pois bem, após não me lambuzar do dito angu doce frito, fui dormir porque no dia seguinte um compromisso  profissional me aguardava. E a primeira noite deste outono me exigiu dois cobertores. Adorei o frio repentino.

Outono e frio. Um me desfaz em pedaços e o outro me refaz no aconchego.

Minha filha chegara para ir comigo à cidade onde nasci que se localiza na Zona da Mata Mineira. Brás Pires. E para lá nos dirigimos na manhã de sábado. Nesta semana minha tia que olhava com as mãos, que tinha a sabedoria estampada em gestos, que tinha o olhar falante e que se reinventou depois da loucura, deixou-nos. Morreu depois de longos anos acometida de um câncer e da demência consequente ao diabetes crônico. Certamente ela fora cantar e dançar com todos os seus pretendentes deixados de lado. Foi a mulher que mais referências me deixou ao longo de sua vida. 

Visitas feitas. Agradecimentos à prima que dedicou aos cuidados da minha tia por longos anos e com imenso desvelo.

Voltamos numa tarde morna prometedora de chuva. Minha filha encantada com as estradas que, pela primeira vez, desbravava. Eu refazendo os caminhos da infância. E, durante toda a viagem, senti o sabor do angu doce frito, senti os ventos do outono cortando a minha pele e pude sentir os cuidados da minha Tia por todo o meu corpo ainda criança.

Acho que sobrevivi pelos carinhos que vinham para além dos cuidados.

Observação: * Foto feita pela autora à entrada da cidade de Lamin.

25/03/2019


















7 comentários:

  1. esse angu doce minha mãe fazia sempre, deu saudades agora.

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    1. Gostaria muito de saber quem é você. Poderia se identificar? Um abraço

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  2. Passei pelas Estradas Real em Dezembro e elas me trouxeram de volta para mim mesma. Encontrei minha alma no caminho delas. Me trouxe outros tempos, novos tempos e cuidados comigo. Imagino suas lembranças.

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  3. Bom. Sempre leio seus contos e suas crônicas. Na verdade minha viagem foi um encontro comigo mesma. Sempre quis fazê-la, porém dezembro para mim foi um mês agraciado. Então desbravei caminhos sem um percurso programado, porém segui meu coração e viajei de diversas locomoções até me encontrar. Como te sigo no blog, você me ajudou a desbravar este caminho que já está com você, mesmo sem você saber. Foi incrível a triha para eu chegar à uma cidade, trilha dos bandeirantes e encontrar meu ouro, meu vale, minha alma. Cidade que encontrei em um livro de um grande autor já falecido que também me ajudou no percurso. A placa de Lamin tem muito haver com meu percurso, embora, não passei por lá. Fiquei pensando que você até sabia do meu percurso, pretensiosa eu! Mas lembrou muito meu desbravar. No mais te digo, olhe em torno dos seus guardados e me encontrará. Creio que ficará surpresa.Fizemos a viagem juntas. Nunca se esqueça disso!
    “A voz do inconsciente é sutil, mas nunca deixa de ser ouvida.” – Sigmund Freud. Abraços! Foi um prazer conversar com você por aqui.

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  4. Sou Elaine. Esqueci de me identificar .

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