segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Dois amores de Rosa



É chegado mais um Natal. Para Rosa, jamais será apenas só mais um natal. Ano após ano ela esperava por este dia.


Ela acordou cedo neste domingo. Nunca gostara de dormir até tarde. Achava que, enquanto dormia, perdia seu tempo para tantos afazeres em sua vida. Às vezes, dizia que fazia assim para que não tivesse tempo para o pensar. Outras vezes tinha certeza disto. Nesta manhã não fora diferente. Levantou ainda com o dia a clarear e fora nos quartos ao lado. Queria ver  suas filhas dormindo. Stela com vinte anos e Vitória com vinte e três anos. As duas filhas de seu longo e morno casamento. 

Ajeitou os cabelos acastanhados pela tintura e esbranquiçados pela vida. Dirigiu-se ao banheiro e olhou-se no espelho. Ainda guardava a beleza de sua juventude embora nunca tivesse se achado bonita.

A seguir caminhou até a sacada de seu apartamento e viajou no tempo. Tinha, agora, a idade de suas filhas. 

Estudava numa cidade distante da sua sua e esperava pelas férias de final de ano para ver a família. Amava seus irmãos nos modos de cada um. Trazia sempre um agrado para eles. Sempre tivera inveja de uma das  irmãs mas isto nunca fora motivos para deixar de gostar dela e sentir muitas saudades.

Na faculdade Rosa apaixonou por um colega logo no início do curso. Não revelara para ninguém aquele amor. Guardou-o para si. Era um jovem cuja beleza carecia de olhos apaixonados para admirá-la. E ela os teve desde o primeiro dia que o viu. Era alto, da pele clara, dos olhos esverdeados, dos ombros largos assim como largos eram seus passos. Mas fora o tom grave de sua voz que encantou Rosa.

Depois iria se surpreender com aquela voz falando da ditadura, das condições do povo brasileiro, das perseguições politicas. Parecia que ele lhe emprestava a voz para que ela pudesse falar de tudo aquilo que sentia, que percebia e que não conseguia dizer.

Ruborizava a face, tropeçava, deixava cadernos e livros caírem, ria descontroladamente e se envergonhava toda vez que via ou era vista por seu colega. Não havia dúvidas. Ela estava apaixonada por ele.

Rosa era, ao mesmo tempo, uma moça de grandes iniciativas e de muita timidez. Evitava os encontros. Evitava ouvir falar dele. Para ela aquele amor era um sonho e assim deveria ser. Um amor platônico.


Seu devaneio continua e eis que é chegado mais um final de ano e, portanto, mais um período de férias.


Numa dessas voltas para casa um irmão começara a namorar uma vizinha. Fora uma paixão pra noivado e casamento. Entretanto ele precisava de companhias para que pudesse sair com a tal moça. Assim era naqueles tempos. Então botou na cabeça que Rosa deveria namorar um amigo seu. Sairiam os quatro com a permissão abençoada dos pais das moças. E Rosa bem que tentou agradar o irmão. Aceitou a escolha dele mas o coração não bateu mais forte apesar da insistência do rapaz que tinha lá seus encantos.

Por estes tempos nossa mocinha já estava com seus vinte e um anos. Na adolescência ela havia vivido um grande amor acabado sem acabar. Virava e mexia e ela lembrava do dono daquele seu amor. Algumas vezes chorou e desejou que o namoro tivesse vingado. Não vingou...

Rosa, nunca soube  o que  acontecera. E Pedro a procurara no Natal passado, no Natal seguinte, no outro Natal seguinte e assim por diante. Foram encontros doces e felizes. E aconteciam sempre  num mesmo restaurante. E em todos aqueles anos, ele dera a Rosa os mesmos presentes: rosas vermelhas e bonecas feitas de tecidos, com vestidos, cabelos e belos sorrisos. Ela nunca soubera, até então, o porquê daquelas bonecas nem se ele lembrava-se que a havia presenteado nos anos anteriores com aqueles  mesmos presentes.

Nesses encontros ele jamais falara em reatar o namoro que eles não puderam viver. E era tudo que ela esperava ouvir dele.

Novo ano chegava e Rosa voltava para sua escola. Lá havia o outro amor que suavizava as lembranças daquele do Natal. O sorriso e a voz do colega enchiam seu coração de alegria e foi assim que o tempo passou. Benício e Rosa nunca se falaram. Mas o corpo dela sempre falara com ele.

Nestes tempos de Natal, Rosa ainda se lembrava daquela boneca toda vestida de azul. Ao chegar em casa, sua mãe perguntou onde arranjara uma boneca tão linda. Temendo que desconfiasse de seus encontros furtivos com Pedro, respondera prontamente: "comprei para você".

Rosa tivera poucos amores. Estranho foi que ela só tivesse namorado aqueles que não amara.

Agora, nesta véspera de Natal, Rosa teve a certeza de que Benício a amara do mesmo modo que fora amado por ela. Foi o amor necessário e possível naqueles tempos desnecessários e impossíveis.

Hoje, quando é chegado  mais um Natal, Rosa enfim, compreendeu o significado das bonecas. E, com tristeza, compreendeu também porque Pedro sempre aparecia para logo desaparecer. 

Ela acorda de seu passado, caminha até a cozinha e prepara seu café. Pouco ou nenhum açúcar e muito pó. Saboreia aquele líquido tão aromático e permite que uma lágrima caia de seus olhos e molhe seu rosto. 


29/11/2014

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