sexta-feira, 16 de abril de 2021

Crônica: Tanto Mar de Mariana

 (Delicadezas em tempos de Coronavírus - XLV)

 




Ainda sob o efeito do telefonema liguei para uma prima. Era a única parenta na cidade onde morava naquela época.

- “Eu também não sei onde fica, mas podemos procurar. Eu vou com você.”

Essa foi a resposta. E, sem demoras, nos dirigimos ao referido local. Só havia aquele crematório em toda a região metropolitana.

- “Fica atrás do CEASA, em Contagem”.

Foi a informação obtida.

Não foi difícil chegar ao local mesmo sem os tais sofisticados GPS de hoje.

Ao chegarmos no cemitério, procurei por aglomeração de carros, de pessoas, de entregadores de coroas de flores. Nada.

Mas conseguimos localizar a sala onde estava ela.

E ela estava linda como sempre.

Durante toda a vida tivemos raros contatos. Entretanto esses foram sempre intensos e marcantes. A história do casamento de seus pais foi-nos passada como cheia de mistérios. O pai era um dos irmãos da minha mãe. Havia se casado muito jovem e fora morar em Mariana. Ela, uma delicada professora de nome estrangeiro, do distrito de Pinheiros Altos, da cidade de Piranga. Tiveram três filhas. Era tudo que nos fora contado.

Na minha infância, quando de férias na casa da avó materna bem no interior da Zona da Mata Mineira, meu tio padre, o “Padrinho” como o chamávamos, nos levava lá para visitar o irmão e sua família. E foi assim que conheci Mariana, Ouro Preto apinhada de hippies – era o ano de mil novecentos e sessenta e oito – e foi assim também que conheci minhas primas. A mais velha já estava casada. Tinha no rosto um sorriso e uma beleza inconfundíveis, assim como o apelido. Cabelos liso e pretos. Olhos de jabuticaba e um quê nas atitudes que eu nunca esqueci. A mais nova usava aqueles óculos fundo de garrafa e seus jeitos pareciam com os de sua mãe. Mas foi a filha do meio que me chamou a atenção. Tinha a pela branca como a porcelana. Os olhos castanhos claros assim como seus cabelos. O rosto perfeito. O riso solto e os dentes alvos e bem colocados. Era a moça mais linda que eu havia visto até então. Mas outra característica foi tão marcante como sua beleza física. A beleza das palavras.

Algum tempo depois essa prima apareceu sozinha na minha casa, em Lafaiete. Dormia sem travesseiros. - Quem sabe aquele jeito de dormir não acabaria com minhas dores de cabeça? - Parei de usar todos aqueles travesseiros confeccionados por minha mãe na tentativa de acabar com aquelas dores terríveis. Eu era bem mais nova e ela me exercia um grande encantamento. Eu iria querer ser assim, delicada, sorridente, cheia de sabedorias e, ao mesmo tempo, misteriosa. Conversou assuntos particulares com meus pais.

Logo depois foi embora. Mas algum tempo depois voltou com o namorado. Teria fugido de casa? A rigidez de seus pais teria sido o motivo que a levou a pedir abrigo na nossa casa? E assim eles se casaram sob as bênçãos dos meus pais padrinhos. A lua de mel teria sido naquele quarto tão sem graça e sem conforto? Acho que sim.

Muitos anos mais tarde, fui convidada a visita-la no bairro onde haviam comprado uma casinha, pelo BNH, numa distante região de Belo Horizonte. Ela dava aulas numa escola pública. Duas filhas já haviam nascido. Era loiras e lindas como a mãe. E fora a primeira vez que vi as portas estilo “shallon” americano dos filmes de faroeste. Era tudo muito simples e tudo de muito bom gosto. Entretanto pude notar que algo não ia bem por ali. O primo que me levou até lá já havia me adiantado algum pormenor. Ele havia levado alguma ajuda. Prometemos voltar.

Saí dali sabendo o quanto eu admirava e gostava daquela prima tão afastada de nós. Naqueles tempos não tínhamos telefones. Os contatos eram raros. Mais tarde iríamos ter outros contatos. As notícias não eram boas. Eu ficava com uma imensa tristeza. Podia imaginar o tanto que aquela prima poderia estar sofrendo. E eu sofria por não ter como ajuda-la. (E também tinha lá meus sofrimentos). Pensava sempre nela com muito carinho e admiração.

Minha prima havia ido atrás dos sonhos dela. Era tudo que eu sabia.

Depois das meninas ela teve um filho cujo nome escolhera como forma de, mais uma vez, expressar seu amor pelo marido. E, mais tarde, nascera a terceira filha. Esta ganhou o nome de cidade italiana, talvez uma homenagem aos ascendentes de seu pai. Conheci esta menina bem pequenininha. Parecia uma boneca de verdade. Pele alva, cabelos e olhos claros (verdes?).

Uns tempos depois soube que o marido havia falecido. O que teria acontecido?

Quantos anos haviam de passado?

Agora eu estava ali diante dela. Morta. Ao redor suas três filhas. Algumas poucas mulheres. Elas cantavam para minha prima, traziam cartazes de agradecimento pela vida vivida da mulher branca, bela e eterna “companheira”. Até ali eu não sabia acerca de suas lutas pela dignidade dos moradores da sua região que havia crescido no abandono do poder público, na violência, nas drogas e na miséria. (Havia sido candidata a vereadora - me disseram). Juntei-me a elas e chorei como ainda choro todas as vezes que lembro do seu corpo descendo para ser cremado e não voltar jamais. Abracei-me às suas filhas. Uma pergunta me viera.

- Como conseguiram me localizar e me telefonar?

- Nos seus últimos dias de vida ela nos pediu que fosse cremada. Disse-nos que gostaria que você fosse comunicada quando de sua morte. Nós não conhecíamos você. Mas ela mostrou um papel onde havia escrito seu nome e o número do seu telefone. Queria que você estivesse presente aqui junto das outras mulheres.

Foi a resposta da filha mais velha.

Hoje penso que minha prima e eu sempre estivemos juntas através de uma conexão que ainda desconheço.


Fotografia: Catedral de Colônia (alemão: Kölner Dom) - Cidade de Colônia - Alemanha - Arquivo pessoal.


15/04/2021

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário