sexta-feira, 16 de agosto de 2019

A novela turca




Sem sinal de TV e optando, para preservar minha saúde mental não assistindo os horrores da política brasileira atual, decidi pelas séries da Netflix. Minhas escolhas nunca agradaram minhas filhas que preferem assistir as complicadíssimas séries americanas. Prefiro aquelas épicas e recheadas de romantismos.

Eis que começo a ver "Resurrection - Ertugrul - O Grande Guerreiro Otomano". Logo nos primeiros capítulos fui capturada pela história, pelo figurino, pelas fotografias, pelo modo de vida das tribos nômades e pelas conversas cheias de metáforas.

Começarei então pela aventura histórica que acontece no século XIII, mais precisamente em 1250, quando os muçulmanos turcos Oguzes, da tribo nômade Kayi, se vêem diante de um grande conflito que poderia exterminar seu povo caso não reagissem e lutassem heroicamente. Do noroeste vieram soldados bárbaros das Cruzadas ou Templários que desejavam expandir seus territórios e sua religião a qualquer preço. E muitas vidas humanas foram ceifadas em nome do cristianismo, a mando da santa amada Igreja. A violência nas variadas formas de matar e as torturas impostas ao povo turco foram marcantes naquela época. E, pelo leste, chegavam os terríveis  mongóis assassinando e queimando as tribos e seus povos para a expansão do Império Mongol uma vez que queriam dominar a Europa.

Neste contexto aconteceram as lutas de resistência de um povo liderado pelo grande "Alp" -guerreiro turco - Ertugrul que foi um líder, filho do "Bei" ou Senhor da tribo Kayi. Eles se viram em meio ao fogo cruzado uma vez que seu território ficava exatamente no local estratégico tanto para quem queria ir para a Ásia, quanto para quem desejava ir para a Europa. E é neste ambiente que a novela acontece.

Se as cenas de lutas, nada bem feitas da TV turca, nos fazem criticar a série, por outro lado todo o enredo vai nos contaminando com as emoções em cada capítulo. 

O cuidado com as palavras, a preocupação com o bem estar da tribo, as histórias contadas pelo "dervixe"- monge muçulmano que faz votos de caridade -, as leis do alcorão e o respeito pelo outro, são exaltados durante todo o tempo.

Em relação ao figurino não foram poupados os adereços e os coloridos nas mulheres. As roupas são de dar inveja a nós, mulheres ocidentais de hoje. Entretanto muito mais visível que as vestimentas da época são as relações com "seus homens". Caladas, submissas, subservientes, são elas entretanto que dão toda a direção dos trabalhos e comandam, no silêncio, as atitudes de seus maridos. Responsáveis pelas mercadorias a serem vendidas em mercados turcos, elas confeccionam as tapeçarias colorindo as lãs, tosquiadas pelos pastores, com os mais belos tons. E os resultados são tecidos e tapetes ainda hoje desejáveis por todo o mundo. (Lembro que há muitos anos decorei meu consultório com um belíssimo "Kilim" nos tons salmão. Onde foi parar meu tapete oriental?)

As emoções ficam por conta das intrigas e traições de membros da própria tribo que, desejando ascensão e poder, se uniam aos templários ou aos mongóis. 

Os hábitos dos povos dentro e fora das tendas, os casamentos realizados nos interesses das tribos, as migrações nas primaveras, os invernos rígidos, as decorações e utensílios do dia a dia das famílias, nos dizem do muito que perdemos com os tempos vindouros. 

Se "meu dever de casa" da Oficina de Escrita era para falar sobre algo "acima de qualquer suspeita", digo que, mesmo sendo uma série de uma TV Turca, com vários defeitos nas filmagens, sinto um  prazeroso bem estar em conhecer outras culturas e outros tempos. E isto está acima de qualquer suspeita.




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