quarta-feira, 13 de abril de 2022

Crônica para Ana

 

       


Ela estava lá

Era um almoço de domingo entre alguns poucos familiares. Comemoravam o casamento dos filhos que aconteceria em breve. Dois eventos importantes na vida da filha mais nova. Formou-se médica em meio à pandemia e já está trabalhando. E irá se casar com o “amor da sua vida”.

O almoço fora servido num requintado móvel que ora fazia as vezes de um buffet. Poucas pessoas em volta da mesa instalada no melhor local da casa. Uma ampla varanda com direito a decoração do busto da linda negra Zulmira.

O noivo apareceu menos sério que sempre, mais encorpado e com a face bem corada.

E eis que ela chega. Postura elegante dentro de um macacão de tecido amarelo com pequenas estampas pretas e brancas. Ali estava a mãe do noivo. Com o nome da mãe de Maria, sendo, pois, a protetora das mães. Cumprimentou a todos com discrição. O menino veio logo atrás. A avó e o neto de quatro anos. Ela procurou um local qualquer para sentar-se e ali ficou. Os sulcos de sua face pareceram mais profundos. Sua pele e seus cabelos apresentavam-se mais esbranquiçados. Seus passos mais incertos. Seu olhar era vago. Parecia nada ver.

A morte recente da filha levara junto muito daquela bela mulher. Um câncer maligno de mama vitimara a jovem mãe daquele menino. E agora? O que será daquela criança senão uma avó sem sorrisos na face? Que efeitos terão sobre o filho a partida tão prematura da mãe? Quem irá às reuniões das mães? A quem ele dará um abraço no dia das mães? A quem ele mostrará seus avanços na escola? (Certamente que, ao chegar esse tempo, ele terá feito suas escolhas, mesmo que escolhas forçadas.) Do pai nada se soube. Sem presença.

O menino estava ali. Inquieto ele andava pela casa. Certamente procurava algo que dissesse da presença ausência da mãe. Disseram-lhe que a mãe virou uma estrelinha. Será que ele terá que esperar por todas as noites da sua vida para procurar sua estrela-mãe? Talvez há que dizerem para ele que as estrelas também brilham durante o dia, mas que o sol, a estrela mais perto da Terra não deixa que vejamos todas as outras estrelas. Dizer-lhe também que sua mãe estará sempre a lhe olhar com muito amor.

E o que dizer para essa mãe-avó? O que dizer para essa protetora das mães que, agora, está desprotegida? Nenhuma palavra irá preencher o vazio de palavras. Não existem palavras para dizer dessa falta de sentido que é a morte de um filho ou de uma filha.

A dor é maior que o mundo. No caso dessa mãe, órfã de filha, todas as palavras que lhe faltam estarão sempre no viver do neto que lhe ficou.



Figura: Pintura de Santa Ana com a Virgem Maria e São João Batista (1513), Quadro de Leonardo da Vinci 


Fotografias: Imagens de Santa Ana da Igreja de São Paulo Apóstolo de Itapetininga (S.P.) feitas pelo amigo João Ricardo a quem muito agradeço a gentileza do trabalho.

 


12/04/2022

Um comentário:

  1. Solidariedade da mãe/avó, que, com todo o esforço para apagar a sua dor pessoal, não apagará o vazio do filho órfão. A vida faz e desfaz.

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