terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Crônica: Churroz e tulipas

                         

Um tanto de pessoas inquietas numa esquina nos fizeram acreditar que seria ali o local que procurávamos. Meu filho procurou vaga para estacionar seu velho e comprido carro alemão com lado do motorista à direita. Uma euforia, realmente, tomava conta das pessoas naquela esquina. Famílias inteiras andando de um lado para outro. O entorno fazia crer que ali era um povoado, ou seria uma “village”?

Assim que chegamos vimos outros brasileiros, já conhecidos e amigos, que também procuravam o lugar aonde todos queriam ir. Joana, uma bela menina ruivinha, filha dos amigos gaúchos, passeava ora com os pais, ora no colo da amiga, ora no chão já querendo correr de um lado para outro.

Naquela esquina havia carros vendendo sanduiches, flores, souvenires, balões, e, de repente, eu vi escrito CHURROZ. Ainda não acreditando naquilo, chamei meu neto e meu filho e fomos lá comprovar e comprar os "churroz". Minha timidez ainda não havia me permitido fazer isto sozinha. Minha nora havia encontrado uma bela poltrona para sentar e fugir do sol que, naquela hora, já estava muito quente. Os churrinhos vinham dentro de um copo descartável e noutro copo vinha um delicioso doce de leite para que besuntássemos aquelas pequenas delicias ali dentro. Enquanto nos esbaldávamos com nossas degustações brasileiras, ficamos sabendo que ali era o ponto aonde os transportes vinham buscar as pessoas para levarem-nas aos campos das tulipas. Dani foi se informar e indicaram os melhores caminhos para irmos até lá.

Estradinhas de terras por entre o asfalto e eis que deparamos com os imensos coloridos em linhas retas. Muitas pessoas já caminhavam de um lado para outro, do lado de fora da cerca, para ver as cores preferidas. Eu procurei pelas marrons avermelhadas. Lindas. Mas, na verdade, era difícil escolher quais eram as mais belas. Pude notar que havia muitos asiáticos, indianos na sua maioria, alguns europeus, brasileiros e muitos japoneses. O espetáculo das cores era de doer nos olhos e na alma.

Meu filho encontrou um jovem conhecido do Sri Lanka com quem já havia trabalhado. Meu neto logo identificou uma mulher estrangeira que operava seu drone com uma câmera fotográfica. Chegou até ela, puxou conversa e logo o aparelho já estava nas mãos dele que passou a seguir as instruções e controlar o aparelhinho. Eu consegui pegar Jôjô no meu colo e ficamos a olhar as flores.

Nesta hora chegou a informação de que havia outro campo de tulipas, bem maior, aberto aos visitantes e sem cercas. A confusão foi armada para virar os carros por ali. Todos queriam ir a tal campo.

Ao chegar lá não havia quem não se emocionasse. Por todos os lados eram cores em linhas retas. Gente de todo o mundo se aglomerava entre as flores para as fotos. Os idiomas se misturavam em palavras de espantos. Nesta hora meus olhos também vagavam pelos coloridos dos sáris e joias que vestiam as dezenas de mulheres indianas que circulavam por ali e se confundiam com as cores das tulipas.

Minha nora, por entre as flores querendo ser fotografada com o marido, escutou “eu tiro as fotos prá vocês” de um homem brasileiro que também passeava entre os canteiros.

Aviões faziam voos rasantes sobre aqueles campos com turistas dispostos a pagar o preço.

Voltamos extasiados com a beleza das flores e das cores. Aquela cidadezinha era chamada Edendale. Será que poderíamos chama-la de cidade das tulipas? Eu não tirava da minha cabeça uma questão que me atazanou as ideias desde que vi os primeiros campos de tulipas qual seja, o que fariam com tantas flores raras? Sendo Nova Zelândia uma ilha tão longínqua, de difícil acesso e, levando em conta a breve vida das tulipas, o que seria feito daquelas milhares de flores? Não ousei perguntar para não perder o encanto.

Na manhã seguinte cada um voltou para sua rotina. Logo cedo fui caminhar no Queens Park com Ana, minha nova amiga santista. Perguntei a ela como havia sido a viagem que fizeram, ela com o marido e toda a família do filho, à cidade de Dunedin, onde, há quase quarenta anos, reside um sobrinho do seu marido. Ana contou sobre a viagem, a bela casa do sobrinho, a praia, as caminhadas até um famoso Farol na península de Dunedin e a volta, no domingo cedo, quando puderam passar em Edendale para verem os campos de tulipas. Entre sorrisos ela ia me contando cada lugar visitado e me contou sobre o trágico destino das tulipas.

06/02/2024

Pois bem, sendo esta uma crônica de trabalho da oficina de escrita, ela deverá responder as orientações do nosso mestre conforme abaixo:

“Hora de tecer o texto definitivo. Você tem os ingredientes. O amor, a cidade, o namorado. Crie a trama, trame. Coloque para funcionar a criatividade e boa viagem.”

Em resposta às estas orientações devo dizer que, assim como as tulipas, o namorado se desfez no breve tempo que durou nosso amor adolescente. Edendale é mais uma cidade encantadora. As flores foram descartadas e restaram os bulbos que irão, de avião, para a Europa onde brotarão com novas cores e com novos amores.

Fotografias: arquivo pessoal

Observação: Caso queiram fazer algum comentário não esqueçam de de se identificarem. 













06/02/2024

2 comentários:

  1. como sempre entro na sua viagem e caminho ao seu lado nestes lugares..

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    1. Ei Lena, que bom saber que tenho excelente companheira de viagem. Um garnde abraço e até nosso encontro neste ano.

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