terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A rua dela



   A placa pintada de azul colonial, a mesma desde a inauguração, guardava ainda as letras vivas, bem escritas, sossegadas, como se o tempo tivesse lhe acomodado à tranquilidade e paciência da maturidade.
  
  A mulher parou e, dentro do carro, conferiu a inscrição da mesma. Sua face tornou-se lívida, denunciando mais que um olhar de conferência. Tal qual a nostalgia de um tempo vivido ali.


 Vestida informalmente mas, com classe e elegância, pagou o motorista, saiu do carro. Dirigiu ao passeio estreito e disforme daquela rua. Caminhou lento. Desprendida. Não havia pressa em seus passos. Apenas leveza. Talvez não quisesse perder nenhum detalhe de sua memória.


  Olhou à sua direita e deparou com as casinhas geminadas. Lindas. Como duas irmãs gêmeas, amorosas. Pode então lembrar do inicio daquela construção. Pareciam que construíam delicadezas. Um convite a todos para entrar por aquela rua.


 A seguir, uma casa velha, carcomida pelos cupins que o tempo trouxe. Ali moravam duas irmãs. Avançadas nas idades. Carcomidas pelo tempo e pela pobreza. Mas doces e fartas nos sorrisos e gentilezas.

  Defronte, só matos e muros.

  A mulher continuou seu caminho como num trabalho de inspeção. Queria certificar se tudo estava de acordo com seu olhar interior. Às vezes inspirava como se quisesse trazer de volta os doces perfumes do tempo que se foi.

  
   A próxima casa, sempre cheirando a tinta nova e madeira de lei, era do jovem mais promissor daquela rua. Entretanto era uma casinha simples e pequena. Combinava com a rua.

  Rua de pretos. Rua de pobres. Rua de meninos. Rua de trabalhadores da Estrada de Ferro Central do Brasil e das minas de manganês.

   Ela virou o rosto para o outro lado e olhou outra casa. Mais uma casa de mulheres negras. Viúvas negras. E um belo filho de atitudes altivas.

   Ao lado uma casa de muitos filhos. Diferentes filhos. Especiais filhos. Muitos filhos.

   Mais alguns passos e ela parou por alguns minutos. Olhou o solo onde pisava. Seu coração acelerou. Arrancaram as pedras pé de moleques e colocaram asfalto. Sufocaram a rua com aquela lama de petróleo. Por onde iriam verter as lágrimas quando as saudades e as chuvas chegassem? Então pensou na ignorância surda em nome da modernidade.

   Refeita da tristeza que lhe abateu, seu olhar fora convocado na direção da voz que lhe chamara pelo nome. Jamais deixaria de reconhecer a docilidade daquela pronuncia do seu nome. Era Felipe. Um menino de quase quarenta anos, num corpo avantajado e num sorriso pueril. 
Aquilo, para ela, fora o eco do seu passado trazido de volta por aquele permanente morador da rua. Caminhou em direção a ele e sorriu. Perguntou como estava. "Tô bem" , respondeu com sua estereotipia de dar passos sem sair do lugar. Felipe será eternamente o grande pequeno guardião daquela rua, pensou ela. Nunca soube oque acontecera com o vizinho adotado. Teria sido hipoxia cerebral durante o nascimento? Ou uma doença cerebral infecciosa ainda quando bebê? Nada fazia importância. Ele sempre fora amado, respeitado e muito querido dentro das suas limitações.

   Não atravessou a rua. Ficou no passeio da casa do menino grande; apenas virou o rosto e olhou para a casa em frente. Ali morava outro menino que, ao contrário daquele, não cresceu tanto nas estruturas mas cresceu muito nos estudos e nos saberes. Carmen olhou com olhos do passado. Sentiu seu coração disparar. Era a casa do grande amor da sua juventude. Um amor que atravessou o tempo e ainda ladeia sua vida.

   
   Aventurou um olhar invasivo. Pulou a janela e o encontrou sentado na sala. Ele sentiu a presença dela e a chamou no diminutivo. Sempre a chamara assim.

   "Esperei por você durante todos esses anos. Chega mais perto. Deixa eu tocar em você."

  
    Do outro lado da rua, duas lágrimas caíram dos seus olhos, agora embaçados pela dor. Levantou a cabeça e voltou a caminhar. Desceu a rua. Sabia quantos passos separavam a casa dele da sua casa, logo mais abaixo. Conhecia cada detalhe. Portões, janelas, cores, cachorros, varandas e odores. Sabia quem deveria estar por trás de cada cortina.

   Chegou na casa onde vivera um pedaço da sua infância. Olhou o número,156, da placa. A mesma comprada por seu pai quando da reforma da casa. Parou. Olhou. Entrou na casa ainda dela. Dirigiu até a janela de frente para a rua. Viu um menino magro, desmilinguido, vestido com uma japona ocre. Ele olhou para ela e sorriu. Foi tão só assim. Entretanto, a partir daquele dia, seus olhares jamais se desencontraram.


    Carminha virou moça. Já não havia dúvidas do seu amor pelo vizinho.

   Hoje, passados quarenta anos, nada sobrou daquela paixão. Viveram se amando como duas paralelas. Porém caminhando em sentidos opostos. A cada ponto de encontro havia duas certezas. Eles nunca deixariam de se amar. E aquela rua fora feita para eles.

  Carminha saiu da sua casa. Subiu a rua de volta e não viu nenhum de seus antigos vizinhos. A rua deserta e envelhecida trouxe-lhe um aperto no coração. Sentiu a tristeza que se abatera sobre ela. Virou a esquina e esperou o táxi.

   
   O mesmo carro e o mesmo motorista. Ele a olhou e a cumprimentou. Pode perceber marcas de um choro recente. Perguntou, gentilmente, se poderia ajudá-la. Ela agradeceu a preocupação e brincou que a ajuda estava quatro décadas atrasada. Tirou um batom da bolsa e coloriu seu sorriso de vermelho.


01/12/2016

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