sexta-feira, 22 de junho de 2018

EUROBEIJOS E LIBRAS ESTRELINHAS




A moça não sabia o valor nem o significado da moeda europeia. Tinha um emprego de vendedora em lojas de móveis. Recebia seu salário, ajudava os pais nas despesas da casa, comprava  suas necessidades e ainda conseguia poupar um pouquinho todo mês. Até abriu uma poupança na caixa. Nunca havia se interessado pelas informações que ouvia na TV acerca de dólares e de libras esterlinas que ela achava que era uma nota cheia de estrelinhas. Era assim que ela ouvia. Libras estrelinhas.
Pois bem, essa moça ganhou um prêmio que lhe tirou o sono. Seu sonho sempre fora conhecer Portugal e namorar o rio Tejo, voltar mais de quinhentos anos no tempo e entrar nas caravelas com Pedro Álvares Cabral, com Pero Vaz de Caminha, com os dois degredados - ela lera que eram dois embora os escritos da história citem apenas um - escorregar nas calmarias e chegar em Coroa Vermelha, nas costas da Bahia. Era assim que imaginava sua ida ao velho continente. Ou melhor, sua volta para a terra brasilis.


Como nada no mundo é como a gente imagina, a moça foi sorteada  num desses concursos de comerciais de agencia de viagem com uma passagem para a Europa. Ida e volta em primeira classe. E dez diárias em hotéis cinco estrelas. Tudo de graça. Só dois pequenos detalhes: ela iria conhecer não o seu Portugal mas o leste europeu e teria que ir desacompanhada.


Ficou deslumbrada com tudo que a agencia lhe falou quando fora receber o premio. Muito fácil, pensou ela. Logo foi ao computador conhecer os tais países e suas moedas. Acabou se perdendo com tanto dinheiro espalhado pelo mundo. Voltou para suas notas vermelhas de dez reais. Ficou quieta. 


Mas seu tempo era curto para arrumar e pensar na viagem. Resolveu que seguiria os passos indicados pela agência patrocinadora. Apanhou toda a reserva que vinha guardando para o casamento e a lua de mel em Porto Seguro. Então decidida, começou os passos.


Primeiro passo: já que seu primeiro dia será em Londres, deverá comprar as libras estrelinhas. E lá fora ela nas tais casas de câmbio indicadas pelas agência de viagem. 


"Você tem que aprender a fazer a conversão do nosso dinheiro no dinheiro que vai usar lá. É só fazer a conta de dividir ou de multiplicar. Depende da maneira como você fará a conversão", falou a moça das casas de câmbio como ela ficou conhecendo.


Ela arregalou os dois olhos. Lembrou de todos os seus professores de matemática. Foi uma péssima aluna nas contas. Nada entrava na cabeça dela sobre as conversões de moedas. Na loja dos móveis tudo já vinha prontinho no computador. Então teve uma ideia. Cada estrelinha vale seis reais. Ou, para cada xícara de chá (sabia que o povo de Londres adora o tal chá das cinco) ela teria que desembolsar quase seis reais brasileiros. " Por que será que nossos reis valem tão pouco assim?" Pensou ela.


"E não se esqueça que lá, na Inglaterra, você não encontrará comidas gostosas. Elas custam muito caro e não são tão boas". Nesta hora o estômago vazio já começava a dar reviravoltas. "Prefiro angu com taioba e frango ensopado da minha mãe". Mas, resignada, ela continuou.


Segundo passo: trocar outros tantos dinheiros por euros. 

Conversa vai, conversa vem , a danadinha ficou sabendo que a caixa econômica e o banco do Brasil fazem a venda pelo celular. E ela conseguiu tudo direitinho. Só foi na agência buscar as alaranjadas. Saiu morrendo de medo de ser roubada. E agora, onde guardar tanto dinheiro esquisito? E nem pensem que ela falará porque esperta ela é.

Terceiro passo: e como ela se comunicará com tantas línguas diferentes? "Fique tranquila pois você estará no meio de brasileiros". E ela ficou bem calma com seus "oui, merci,  yes, non, please, thank you very much, I don't speak  ingles", Je ne parle pas français, arigatô, e por ai afora. Também nem queria falar. Queria ver, ouvir e se calar. Era a oportunidade de sua vida: ficar calada noutros países.


Quarto passo: que roupas levar? Ficou muito triste quando lhe contaram que estará quente nos dias em que estiver lá. Não gosta de verão e queria ver as roupas de inverno vestindo as mulheres europeias. Por outro lado pensou que sua mala iria mais leve uma vez que não teria que levar tantas roupas. Uma muda de roupa por dia. Assim decidiu ela.


Quinto passo: fazer uma lista dos lugares onde gostaria de visitar em cada uma das cidades. Ela nem sabia falar os nomes das cidades. Umas eram medievais, outras cheias de canais, outras com muitos castelos, outra tem até tortas de maconha, muitas com construções de vários tipos, outras cheias de igreja. E uns nomes de cidades ela nem conseguia falar. "Também alemão é muito difícil. Já vi muito filme de guerra e eles falam nervosos como se estivessem sempre brigando ou sempre dando ordens".

Ela queria mesmo era ver os ladrilhos das casas em Lisboa, o tal rio Douro, a cidade de Sintra onde lhe falaram que era o refúgio da nobreza, e tudo que imaginava do pais da península Ibérica. Ela sempre foi apaixonada com geografia, de Portugal ainda mais.

Mas a moça voltou para Budapeste. Sempre achou esse nome muito diferente mas logo foi se informar sobre a cidade cheia de monumentos, como o Castelo de Buda, os parques, as igrejas, as águas termais e o famoso rio Danúbio. Seus olhos iriam se esbaldar de tanta beleza, pensou ela.

Agora ela parou para descansar. Ainda faltavam muitas cidades para ir conhecer, pelo computador, e seu coração bateu forte pensando que nem falara com o namorado. Ele andava desconfiando que ela estaria aprontando alguma coisa. Não acreditou naquela bobagem de sorteio de vôos e diárias em hotéis luxuosos na Europa. Então:

Sexto passo: comunicar ao namorado sobre sua viagem. 
Vestiu uma bela roupa. Passou sua água de cheiro de flor de laranjeira, botou o brinco de ouro que ele havia lhe dado e esperou.

Ele não apareceu. Bem tarde da noite enviou uma mensagem informando que ficara no trabalho pois acontecera uns imprevistos e o chefe pediu que ele ficasse para ajudá-lo.

"Isto é desculpa de quem não quer ouvir o que eu tenho a dizer", pensou ela em voz alta.

Decidiu, assim, comunicar também o imprevisto da viagem pelo celular. Ele quase caiu duro do outro lado. Apareceu logo, já quase meia-noite e ouviu com atenção tudo que ela tinha a contar. Ele, com bafo da cevada, ficou muito irritado e lhe peguntou onde ela teria arrumado tanto dinheiro. 

"Foram minhas economias para nosso casamento"

Ele não se conteve e quase chorou de tanta raiva. Mas, como homem não chora, ele ficou tão e qual os soldados alemães dos filmes: perdeu a compostura. Falava e falava e ela nada ouvia.

De repente o noivo foi embora e ela ficou sem nada entender.

Nos dias seguintes ele não apareceu e ela não procurou. Um sorrisinho de alívio já percorria sua face.

Na manhã de sua viagem, enviou para ele a mensagem: "Fique calmo meu bem. Vou e volto e ainda lhe trarei muitos eurobeijos". 

E ela foi com uma mochila cheia de euros e libras estrelinhas.

22/06/2018




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