quarta-feira, 4 de julho de 2018

ONDE ESTAVA A MÃE?


De uns meses para cá Carmen tem estado diferente. Começou a se incomodar ao ouvir algumas de suas próprias palavras. Percebeu que isto tem acontecido mais comumente. Muito saudável, jamais deixou de praticar atividades físicas. Assim fora desde sua adolescência quando jogou handebol e basquete na sua escola. Agora, com os filhos adultos, cada um vivendo a seu modo e longe dela, os pensamentos criaram asas e começaram a ocupar sua cabeça.


Ficou viúva muito cedo. O marido era bom companheiro e bom pai. Faleceu ainda jovem vitimado por um tumor cerebral maligno que a medicina chama de GBM. Os quatro filhos menores ficaram desolados e se apegaram ainda mais a ela. E esta foi uma das razões para não ter aceito propostas de um novo relacionamento.

O casal não conseguiu adquirir a casa própria pois sempre chegava mais um filho e o tempo passou depressa demais. A mãe de seu marido sempre deixou que eles morassem num amplo barracão nos fundos da sua casa. Isto nunca agradou Carmen que trabalhava várias horas por semana e economizava um pouco do dinheiro para dar entrada num financiamento através dos programas de habitação do governo. Nunca deixara de trabalhar. Só tirava férias e licenças maternidades garantidas por lei. Entretanto não contava com a doença do marido e sua morte tão rápida. O dinheiro poupado fora quase todo embora. 

Passados alguns meses da morte do marido percebeu que a sogra distanciava a cada dia mais dela e dos netos. Sempre soube que havia dificuldades no convívio. Até então havia o marido que sustentava a proximidade entre uma e outra. Um dia procurou a nora e disse que a presença dela e dos netos não lhe deixava esquecer o único filho. Pediu que fossem morar noutra casa.

Carmen juntou o resto de suas forças, alugou um pequeno apartamento e saiu dali. Os filhos não entenderam e nem quiseram sair de perto da avó e do amplo terreiro da casa. A mãe explicou que seria necessário uma vez que ali, no apartamento, estariam mais seguros quando ela saísse para trabalhar. Não disse que a pensão do marido era muito pequena e que teriam que economizar ainda mais para comprarem a tão desejada casa própria.

À noite ensinava os deveres aos filhos e preparava os lanches para o dia seguinte. Sempre teve boas empregadas. Dizia que elas eram indispensáveis para que pudesse trabalhar como tanto gostava. 


Desde muito jovem começou a trabalhar num supermercado. Sua habilidade, inteligência, compromisso com o trabalho e educação com os clientes lhe renderam promoções até conquistar o cargo de gerência de uma grande rede de supermercados. Embora tivesse estudado apenas o curso técnico em administração, aprendia com facilidade as constantes mudanças impostas pelo mercado varejista. Ganhou prêmios além de alguns desafetos. Nada lhe fazia desistir dos avanços no trabalho. Às vezes eram-lhe exigias horas extras e várias reuniões.

Agora Carmen vem lembrando-se do casamento quando ainda eram muito jovens. Lembra do nascimento da primeira filha e do tempo em que decidiram ter um segundo filho. O terceiro e o quarto filho vieram como presentes extras, diziam eles. Foram tão esperados e queridos quanto os primeiros. E eles cresceram juntos. Com muito amor e não sem grandes dificuldades.

Quando viera o diagnóstico do marido após algumas semanas de dores intensas de cabeça e perda da força muscular, tudo perdeu o sentido na vida deles. A evolução da doença foi rápida e não dera tempo para ela e os filhos estarem preparados para ficarem sem o marido e o pai.

Para a sogra a morte do filho fora devastadora. Os cabelos logo branquearam de vez. A pele ressecou e enrugou. O descaso com a vida penetrou-lhe pelo corpo. A docilidade de mãe e avó deu lugar ao amargor. Logo veio o isolamento e ela se fechou para o mundo apesar da insistência do marido para que ela voltasse a ser a mulher vaidosa de sempre.

Entretanto se para a mãe a morte do filho trouxera a sua própria morte, para a esposa foi necessário o oposto. Ela buscou forças de não soube onde para acalentar, alimentar, educar e cuidar de seus filhos. Dobrou suas horas extras, trabalhou em finais de semana e feriados. Os filhos logo cresceriam e demandariam mais dela nas escolas e na vida. Ela não deixaria faltar nada para que eles tivessem boas escolas e bons livros. Nunca se preocupou com roupas caras ou de grifes. Queria os filhos bem cuidados, alimentados e estudando.

Agora, passados tantos anos da morte do marido, vem fazendo imersões no seu passado e não encontra o que procura. Queria lembrar-se dos filhos quando crianças. Mas na sua memória vêm apenas cenas de seus dia a dia quando desejava que eles dormissem cedo para que ela pudesse descansar. Constatou que não teve tempo para vê-los crescer e que não acompanhou suas etapas de crescimento. Hoje estão todos crescidos e independentes.

Então um detalhe começa a lhe assombrar nos pensamentos. Onde estavam seus filhos quando ela fazia suas atividades físicas? E é isto que tanto lhe incomoda atualmente ao falar, com orgulho, que jamais deixara de caminhar, ou nadar, ou fazer musculação, que ela detestava. Será que ela deixou de cuidar dos filhos para cuidar de si? Será que ela abandonou seus filhos?


Carmen não tem as respostas. Mas vem pensando muito na tal doença de Alzheimer, conforme ela tem lido na internet, onde as pessoas acometidas fazem um caminho de volta na vida e sentem os mesmos afetos de cada etapa vivida. A doença não seria uma concessão da sábia natureza para as mães e os pais que por quaisquer motivos não viram seus filhos crescerem, pudessem agora vê-los na doença?

Está certa que sim.

29/06/2018

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