quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Crônica do acaso

 

(Delicadezas em Tempos de Coronavírus - XXXVI)

 


Eu queria ter meu próprio dinheiro. Havia decidido que não iria parar meus estudos por falta de capital. O curso escolhido exigia muita disciplina, estudos e financiamento. Embora já tivesse claro para mim que só poderia fazê-lo numa universidade pública. Morando no interior, talvez fosse ainda mais difícil. Ou não. Eu precisava inventar meios de trabalhar. Lembro que dei aulas de reforço em aritmética, geografia e ajudava nos deveres de casa de duas irmãs gêmeas e a satisfação do pai em vê-las aprovadas valeu qualquer esforço além do pagamento vir ainda com um acréscimo. Eu guardava todo o pagamento recebido pelos meus trabalhos. Até que surgiu a oportunidade de dar aulas no MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização). Estava com quinze anos e todos os alunos eram mais velhos que eu. As aulas eram dadas numa enorme sala do prédio do Tiro de Guerra, bem próximo à minha casa. A alegria dos meus alunos e alunas ficava estampada nos seus rostos a cada letra reconhecida ou escrita. Se conseguiam juntar as letras, formar sílabas e juntá-las para formar uma palavra, a alegria era redobrada. A cada nova palavra uma descoberta e uma viagem às rotinas de cada uma delas.

Um aluno, em especial, chamou muito minha atenção e dele jamais esqueci. Era meu vizinho e sua família havia mudado para ali recentemente. Não conhecia pessoas com aquela cor de chocolate e dos cabelos pretos e lisos. Sempre achei que fossem índios. Ainda acho. A mãe já era uma senhora mais velha, com os modos diferentes de andar, de prender os cabelos lisos, brincos e colares dourados e coloridos. Quando a via no passeio de sua casa, estava sempre acocorada, com saias rodadas. Era uma família numerosa. Todos eram bonitos; com aquela bela cor e os belos cabelos negros brilhantes. Será que eram índios? Ou será que eram ciganos? De onde será que vieram? Por que o rapaz não aprendeu a ler e escrever? Seriam muito pobres? Moravam na roça? De que cidade vieram? Mas minha pouca idade me levava para outras imaginações. Enquanto eu viajava noutros planetas, minha mãe e outras vizinhas prestaram solidariedade e deram boas-vindas àquela imensa família.

Ou será que, naquela época, eu já estaria invernada nos meus livros e cadernos para garantir uma bolsa de estudos noutra cidade? Não me lembro de ter sabido as respostas para minhas perguntas. Mas lembro bem que esse jovem começou a beber muita cachaça. Meu coração doía todas as vezes que o via descendo a rua, após um dia de trabalho. Cambaleava. Abaixava a cabeça quando me via.

Ganhei a tão desejada bolsa e fui embora. Voltava, de vez em quando, para visitar meus pais. As passagens eram caras e precisava continuar economizando meus parcos recursos.

Muito tempo depois disto soube que o irmão mais novo que o meu vizinho e ex-aluno havia se casado e que continuava morando com os pais. E pouco tempo depois disso soube que o irmão havia falecido no mesmo dia em que seu primeiro filho havia nascido. Tenho para mim que a emoção fora tanto que seu coração parou. Morrera de enfarto minutos depois de ver seu filho ou nem chegara a vê-lo? Não sei.

Meio século depois de ter tido esse aluno no MOBRAL comprei a casa onde vivi naqueles tempos. Sempre que vou lá fico viajando através das janelas, do terraço ou chego ao portão. A rua ainda é a mesma. Muitos moradores ainda são os mesmos. Mas agora, quando aquele “índio-rapaz-homem” passa sóbrio, após mais um dia de trabalho e me cumprimenta, há um não dito em seu olhar.

Só eu e ele sabemos da história desse olhar.


Foto: dentro de um barco para Frankfurt, Alemanha, agosto de 2018.

Funil, 17 de fevereiro de 2021.

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