quinta-feira, 14 de julho de 2022

Conto: A Foto - Reminiscências de um amor


Ah, eu não me esqueço daquele encontro tão esperado. Estávamos ávidos para nos vermos. O ano passara lentamente como se nunca fosse chegar o tempo do encontro. As cartas já não seguravam o desejo de ouvir a voz um do outro, de sentir o cheiro um do outro, de tocar a pele um do outro. Havíamos decidido o local para nosso tão esperado encontro: Cabangu. Ele desceria a BR-040 em direção a Juiz de Fora e eu subiria a mesma BR em direção a Barbacena. Acho que queríamos voar nas asas do “Oiseau de Proie” como os franceses chamaram o 14 Bis de Santos Dumont. Na verdade, queríamos tão só voar na imaginação e tentar parar o tempo. Assim poderíamos eternizar o instante daquele encontro. Tudo arranjado. Iríamos ficar na casa de um amigo que estava viajando e deixara a chave com uma vizinha. Cabangu é uma bucólica fazenda onde nasceu nosso “Pai da Aviação”, Santos Dumont, incrustada em meio à Serra da Mantiqueira.


Tínhamos nos conhecidos havia dois anos, durante uma viagem minha a Belo Horizonte. Eu, enquanto estudante de turismo, desejava conhecer as obras grandiosas do arquiteto de Oscar Niemayer na capital mineira que também não conhecia. Chegara na noite anterior quando procurei um bar na famosa região da Savassi. Na manhã seguinte iniciaria meu roteiro feito cuidadosamente. Um taxi me levou à Pampulha, bem ao lado da Igrejinha de São Francisco. Logo que entrei fiquei encantada com os azulejos. Havia lido que o mosaico de azulejos azuis e brancos fora criado pelo artista Paulo Werneck e que, as curvas da arquitetura da igrejinha representavam uma inovação na arquitetura sacra brasileira e foram inspiradas nas montanhas de Minas Gerais. Sai dali sentindo-me abençoada. Quis aproveitar aquele estado de graça e caminhar no entorno da lagoa. Foi então que, caminhando em sentidos, deparei com dois olhos felinos a me olharem. Despretensiosamente cravei nele meus olhos da cor do ciúme. Os sorrisos foram naturais. Continuamos a caminhada, cada qual por seu lado. Depois de alguns passos, não resisti, olhei para trás e lá estavam os olhos de gato a me olharem. Paramos nossas caminhadas. sorrimos, instintivamente, fomos um em direção ao outro. Assim como eu, ele também estava só. Nos apresentamos. Rimos de nossos embaraços como os dois jovens que éramos. Um convite para sentar debaixo de uma árvore. Um caldo de cana, um pastel e o cupido nos atirou suas flechas impiedosamente. Ficamos flechados e encantados.

Na manhã seguinte voltei para Petrópolis onde trabalhava numa agência de turismo. Voltei flutuando no assento nada confortável do ônibus que me levaria de volta para casa. A primavera deixou comigo os perfumes das flores de Beagá e foram meus companheiros na longa viagem.

Desde então começamos a nos escrever. E nossas solidões ganharam formas. Encontrávamos nas palavras de amor, encontrávamos nos relatos de nossos trabalhos e começamos a construir uma relação de afeto e cumplicidade. Passamos a nos ver sempre que possível. Uma vez lá e outra cá. Ele morava numa cidadezinha próxima a Belo Horizonte.

No natal daquele ano nos encontraríamos novamente. Desta vez ele viria a minha casa. Queria conhecer minha família. Estaria de férias da escola onde lecionava física e eu teria recesso de alguns dias. Tudo combinado a não deixar nenhuma dúvida. No dia marcado para sua chegada eu estava exuberante na minha ansiedade. Um sorriso largo dominava meu rosto. Mas um telefonema tirou de mim toda a euforia. Ele não viria mais. Um imprevisto impediu que ele fizesse a viagem.

Passei o natal com meus familiares e minha desilusão. Não houveram outros telefonemas. Voltei para meu trabalho. Nenhuma carta na caixa de correio. Chegou o carnaval e fui para a avenida. Foi preciso dançar e sambar para exorcizar toda a tristeza que me fazia companhia.

- “Eu chorei na avenida. Não pensei que mentia, a cabrocha, que eu tanto amei”. Esse era o refrão da música que desfilava comigo.

Passados alguns meses encontrei uma carta dele, solitária, entre papéis de anúncios, dentro da caixa dos correios.

Ele me dizia que havia se casado com uma colega de trabalho. Não disse mais nada. Nem fora preciso. Enviou um abraço e desejos de eu fosse feliz. Ainda hoje trago comigo os perfumes e os olhares felinos de Beagá.

Olhei novamente a foto, que ora encontrei perdida numa lata de sabonetes e guardada quase meio século. Estávamos na Leiteria São Luiz, que eu já conhecia por suas quitandas mineiras e os deliciosos queijos, às margens da BR 3 como era chamada naqueles tempos. Bem ao lado da escultura de uma avião, indicando que ali nascera o pai da Aviação. Ele e eu éramos felizes.

E, agora, me veio a belíssima interpretação de Tony Tornado nos festivais brasileiros de música popular:

“a gente morre

Na BR 3...”

14/07/202

Agradeço a gentileza dos trabalhadores da Leiteria São Luiz, Elisângela e Edilson, que entenderam meu pedido, por telefone, da foto e ao proprietário Carlos Alberto de Faria que autorizou o envio da mesma. 

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