quarta-feira, 9 de julho de 2014

NAQUELA RUA UM OLHAR NA JANELA..




        

Aquela rua tinha uma beleza que só era visível por seus moradores. Era chamada de "Rua Nova" pelos moradores mais antigos da rua aonde ela nascia. Também eram novas as pessoas que foram viver ali. Eram, na sua maioria, provenientes de zonas rurais daquela ou de outras cidades ao redor.

Naquela rua, ainda nova, a água demorou a chegar por debaixo da terra e, quando chegou, cismava de não aparecer pelos canos ou aparecida meio barrenta.

A "Força e Luz" era tal e qual. Às vezes deixava todos na escuridão ou sob a luz do luar. Era uma comunidade de estranhos e estrangeiros que levavam uma vida simples e compartilhavam dores e favores.

Ali havia riquezas inimagináveis como a alegria estampada nas brincadeiras diversas e diárias. Eram teatros improvisados, circos com trapezistas mirins, barra-bandeiras, queimadas e muitas outras invenções. Os meninos, um pouco maiores, brincavam de pique-esconde, corriam pelas noites até o imenso quintal da Tieta e ali se escondiam no pomar de jabuticabeiras, goiabeiras e tantas eiras.

Algumas vezes, a banda de verdade prestigiava aquela rua, com alguns vizinhos músicos integrantes, em seus belos uniformes. E a música encantava e contagiava todos nós.

Naquela rua nova ainda não havia calçamento. A terra vermelha era o desespero das mães com as poeiras do inverno e com o barro nas chuvas do verão.

Era uma rua muito estreita. As casas eram alinhadas, quase iguais, assim como iguais eram os dias naquela rua.

Pela manhã, meninos com enormes balaios gritavam anunciando pães frescos. Nem todas as famílias tinham dinheiro para comprá-los, e a meninada ia para a escola com o cheiro forte do fermento da massa e a barriga vazia.

A volta da escola era uma festa. Voltavam em turmas. Turmas da mesma idade, turmas de meninas, turma de meninos, turma de afins.

-" Vamos fazer uma festa de São João?"– perguntara Zelinha, logo que Junho chegou naquele ano.

A resposta viera tão ligeira quanto os preparativos.

Trabalhos definidos, os meninos ficariam com a construção das barracas. Os bambus seriam cortados na chácara do final daquela rua. As meninas cuidariam dos enfeites, das bandeirinhas, da arrecadação das prendas e da organização. As mães seriam responsáveis pela canjica, pelos pés-de-moleque, pelas broas, pelo quentão e por tudo do mais gostoso.

Dorinha convidara todos para a quadrilha, colocava ordem, formava os pares, ensaiava os passos, atrevia no francês "en avant, tour, en arrièré" e cantava no português, olha a chuva, olha a cobra, cestinho de flores.

A escolha pelos noivos era sempre uma tarefa importante. Às vezes causava brigas e ciúmes, nada que Dorinha não tivesse seu jeito para provocar o entendimento.


- "Você dança comigo?"
Foi a pergunta feita por um menino àquela sua escolhida.

Zelinha respondeu sim ao pedido de Tomé.

Embora o achasse esmirrado e feio, considerou seu pedido pois ele havia sido muito prestimoso ao ajudar na construção das barraquinhas. A ela nada passava despercebido na arrumação da festa.

E chegou o grande dia. A rua coloriu de bandeirinhas, bambus verdes, barracas e luzes nas casas.

À noite, a festança ia começar. Meninos vestidos como pequenos caipiras, chapéus de palha, bigodes feitos com carvão, um andar dançante de pernas tortas e cambaleantes. Meninas com tranças e fitas nos cabelos, vestidos de chitas e rendas, ruge no rosto, muito batom e um dançar gracioso.

Tinha sanfona, violão e gente cantando as músicas de São João.

Os pais participavam e se orgulhavam de seus filhos e filhas numa quadrilha tão bem preparada.

Naquela noite muitos namoricos iriam começar. Certamente outros tantos teriam seu fim. Santo Antônio que cuidasse de seus afilhados.

E chegavam convidados de vários lugares da redondeza. A rua enchia de gente e novidades. São Pedro colaborava com um céu cheio de estrelas e nenhuma chuva.

Tudo pronto; era só começar. Os sons ecoavam por todos os lados. Risos, brincadeiras, e muito de comer.

“Com a filha de João,
 Antônio ia se casar,
 mas Pedro fugiu com a noiva,
 na hora de ir para o altar...”

Depois o cansaço da desarrumação e os fuxicos da festança que, mais uma vez, fora nos conformes.

E, dali em diante já se iniciavam os preparativos para o próximo ano. Ou quem sabe uma outra festa.

Entretanto, no dia seguinte daquele ano, Zelinha amanhecera diferente. Levantou e olhou pela janela; a rua pareceu-lhe outra. Ela era outra. Alguma coisa invadiu seu peito e tomou-a de si. Ela estava apaixonada por Tomé.

Olhou a rua de novo e, como num presságio, tivera uma visão do que lhe aguardava do outro lado da janela: uma rua esvaziada e sem dança. Uma rua envelhecida e esquecida.

Ela continuou olhando. Então viu apenas restos de um amor vivido nos entremeios de um tempo que se fora. Olhou mais uma vez pela janela. E chorou. Chorou pelo amor nascido no repente do olhar. E chorou pelo amor que sabidamente não viveria.

Julho/2014

quarta-feira, 2 de julho de 2014

SINAIS E SINTOMAS DE DESPEDIDA III



                A REINVENÇÃO


Contrariando as recomendações do ortopedista, decido caminhar em companhia de minhas filhas. Uma delas, atleta, optou pela corrida. A outra começou ao meu lado, mas logo me deixou para trás uma vez que meus joelhos começaram a doer e foi necessário reduzir a marcha. 

Então fiquei comigo naquela charmosa avenida, minha velha parceira de mais de vinte anos de caminhadas. 

E caminhando deparei-me olhando para o chão, uma mania. Parecia que eu procurava alguma coisa perdida. Foi ai que me lembrei do par de brincos de pérolas de Maiorca, que eu usei no meu casamento e que havia perdido, um deles, no hospital onde trabalho. 

Durante os plantões seguintes procurei, em vão, por aquela joia perdida. Até desistir.

E, finalmente, nesta manhã ensolarada de inverno, encontrei meu brinco perdido.

Ele estivera comigo durante toda esta semana e, só agora eu consegui vê-lo.

E fora no meu último plantão noturno, antes das minhas longas férias e posterior aposentadoria, que a referida joia apareceu.

Era um jovem de vinte e dois anos, levado até ali pela policia militar, acompanhado da mãe que se mostrava muito serena ao lado dele.

Entrou no consultório sem dificuldades, mas com ares de poucos amigos. Tinha nome de cantor nordestino famoso dos anos oitenta. Estava ele deveras emudecido como aquele cantor que lhe deu o nome.

Não quis conversar comigo, mantendo-se cabisbaixo. Mais uma tentativa de abordagem e ele continuava calado. A seguir chorou com muita angustia e disse que odiava a mãe. Voltou o rosto para ela e acusou-a de não gostar dele. Chorou ainda mais e passou a agredi-la verbalmente com muita hostilidade.  

Intervi naquele momento, com tranquilidade e firmeza, pedindo-lhe que  parasse com tais agressões e que falasse o que estava acontecendo.

Ele, ainda de cabeça baixa, me disse que ela protegia os irmãos mais velhos e que um irmão havia lhe quebrado um de seus dentes da frente.

-“deixe-me ver seus dentes. Talvez, seja necessário encaminhar você ao dentista”. Disse-lhe.

Ele levantou o rosto, abriu a boca e me mostrou a gengiva com o dente faltante. Entretanto, muito mais que o vazio daquele dente, pude ver o vazio que se instalara naquele jovem. Ele continuava chorando, e sua tristeza contagiava em volta.

Tranquilizei-o dizendo que providenciaria alguns medicamentos para aliviar a dor de dente  e que iria solicitar a avaliação por um cirurgião dentista. Nesta hora a mãe informou que ele mesmo já vinha pagando seu tratamento odontológico.

 A seguir ele me olhou, aprumou na cadeira e disse:

-"eu sou o Messi, o melhor jogador do mundo”

Então, enquanto o melhor jogador do mundo, fora possível para ele falar desse sujeito encontrado para suportar a angústia do que lhe  faltava. 

E eu continuei meu trabalho, já não mais com um cantor decadente e esquecido dos anos oitenta, mas com o mais genial jogador de futebol de todos os tempos.

Tai meu brinco perdido, não mais uma falsa pérola espanhola, mas uma verdadeira pérola argentina.
 
E é assim, REINVENTANDO A VIDA, que encerro meus SINAIS E SINTOMAS DE DESPEDIDA.