quarta-feira, 2 de julho de 2014

SINAIS E SINTOMAS DE DESPEDIDA III



                A REINVENÇÃO


   Contrariando as recomendações do ortopedista, decido caminhar em companhia de minhas filhas. Uma delas, atleta, optou pela corrida.  A outra começou ao meu lado, mas logo me deixou para trás uma vez que meus joelhos começaram a doer e foi necessário reduzir a marcha. 

  Então fiquei comigo naquela charmosa avenida, minha velha parceira de mais de vinte anos de caminhadas. 

  E caminhando deparei-me olhando para o chão, uma mania. Parecia que eu procurava alguma coisa perdida. Foi ai que me lembrei do par de brincos de pérolas de Maiorca, que eu usei no meu casamento e que perdera, um deles, no hospital onde trabalho. 

  Durante os plantões seguintes procurei, em vão, por aquela joia perdida. Até desistir.

  E, finalmente, nesta manhã ensolarada de inverno, encontrei meu brinco perdido.

  Ele estivera comigo durante toda esta semana e, só agora eu consegui vê-lo.

  E fora no meu último plantão noturno, antes das minhas longas férias e posterior aposentadoria, que a referida joia aparecera.

  Era um jovem de 22 anos, levado até ali pela policia militar, acompanhado da mãe que se mostrava muito serena ao lado dele.

  Entrou no consultório sem dificuldades, mas com ares de poucos amigos. Tinha nome de cantor nordestino famoso dos anos 80. Estava ele deveras emudecido como aquele cantor que lhe dera o nome.

  Não quis conversar comigo, mantendo-se cabisbaixo. Mais uma tentativa de abordagem e ele continuava calado. A seguir chorou com muita angustia e disse que odiava a mãe. Voltou o rosto para ela e  acusou-a de não gostar dele. Chorou ainda mais e passou a agredi-la verbalmente com muita hostilidade.  

  Intervi naquele momento, com tranquilidade e firmeza, pedindo-lhe que  parasse com tais agressões e que falasse o que estava acontecendo.

  Ele, ainda de cabeça baixa, me disse que ela protegia os irmãos mais velhos e que um irmão havia lhe quebrado um de seus dentes da frente.

 -“deixe-me ver seus dentes. Talvez, seja necessário encaminhar você ao dentista”. Disse-lhe.

  Ele levantou o rosto, abriu a boca e me mostrou a gengiva com o dente faltante. Entretanto, muito mais que o vazio daquele dente, pude ver o vazio que se instalara naquele jovem. Ele continuava chorando, e sua tristeza contagiava em volta.

  Tranquilizei-o dizendo que providenciaria alguns medicamentos para a dor e que iria solicitar a avaliação por um cirurgião dentista. Nesta hora a mãe informou que ele mesmo já vinha pagando seu tratamento odontológico.

  A seguir ele me olhou, aprumou na cadeira e disse:

“- eu sou o Messi, o melhor jogador do mundo”

  Então, enquanto o melhor jogador do mundo, fora possível, para ele, falar desse sujeito encontrado para suportar a angústia da falta do outro. 

  E eu continuei meu trabalho, já não mais com um cantor decadente e esquecido dos anos 80, mas com o mais genial jogador de futebol da atualidade.

 Tai meu brinco perdido, não mais uma falsa pérola espanhola, mas uma verdadeira pérola argentina.
 
 E é assim, REINVENTANDO A VIDA, que encerro meus SINAIS E SINTOMAS DE DESPEDIDA.


2 comentários:

  1. Genial, minha amiga.
    Parabéns!

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  2. Sonhamos um dia em que a saúde mental, ou seja, a saúde da alma, tenha seu devido status como busca humana. A literatura, a palavra, cria realidades, querida companheira de cura.

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