segunda-feira, 21 de julho de 2014

OUTRA HISTÓRIA DE MEU PAI

Foto gentilmente cedida por Felicio Rivelli, um apaixonado por rally de carros antigos.


  Não lembro em que ano esta nossa aventura acontecera, mas dela jamais esqueci. Pois bem vamos lá pra nossa viagem.

  
  As coisas começaram a melhorar lá em casa. Meu pai comprou uma Rural Willys nas cores azul e branca e se orgulhou da beleza do carro, da potencia do motor, do conforto, do espaço para toda a família e por ai afora. 

  Começamos logo a planejar nossos passeios pelas regiões no entorno de nossa cidade.


   Meu pai adorava geografia, história, contas de "noves fora", que eu nunca entendi, e nos acompanhava nos deveres de casa com muita competência e sabedoria.

   Lá estava ele, com os filhos, no meio das discussões para nossas viagens. Minha mãe sempre preocupada e se ocupando com o frango na farofa, os bolos e os refrescos. Ela era mestre nas quitandas. Só ela sabia fazer um bolo complicado que minha avó chamava de Espera Marido e que era delicioso.

  Então vamos viajar. Uma de nossas primeiras aventuras fora no Rio Paraopeba, próximo a Ouro Branco, numa região onde ele fazia uma enorme curva e provocava uma pequena prainha com areia fina, pedras e árvores para o descanso do sol. 


  Foi uma festa aquele domingo tão esperado. Meu pai convidara sua única irmã, bem mais nova, com o marido e os filhos que eram nossos vizinhos, protetores e grandes amigos.

  E foi para falar deste meu tio e cunhado do meu pai que resolvi contar de nossa Rural Willys.


  Tio Edir era o nome dele. Alto, magro, calado, sempre vestido e penteado com rigor. Tal qual minha tia Lourdes Maria, uma bela mulher, brilhante professora, mãe e dona de casa. Construíram uma casa; a mais bonita da rua de cima e de todo o bairro. Ele e meu pai eram colegas de trabalho no serviço público além do parentesco e da grande amizade. Mas nada é tão perfeito assim e é claro que havia divergências.

  Meu pai sempre fora atleticano ferrenho e meu tio cruzeirense; meu pai gostava do Bangu, campeão carioca em 1966 e até perdoava a contravenção do seu eterno presidente; meu tio era botafoguense convicto. Meu tio possuía um lindo Austin azul claro e saia pouco nele que ficava na garagem para apreciação dos vizinhos e dele próprio. Meu pai amava os carros que iam e viam nas estradas de terra.

  Eu tenho para mim que foram as grandes diferenças que os tornaram grandes amigos.

  Meu pai cismou de nos levar na terra natal desse seu amigo. Ele ria e fazia troças com a sonoridade do nome, Crockat de Sá. 


  E, durante muitos dias ouvimos e repetimos aquele nome. Na verdade meu pai só queria brincar conosco e com nosso tio. Contou-nos da chegada da bicicleta com farol na referida localidade. A cidade se encantou com aquelas luzes nas estradas, à noite, que não eram vaga-lumes, dizia ele. 

  Mas o fato se deu numa destas noites quando um cidadão voltava da casa de sua donzela em sua novíssima bicicleta já com o potente farol. Eis que ele vê, logo à sua frente e vindo em sua direção, dois faróis tão potentes quanto aquele de sua bicicleta. O jovem amante não tivera dúvidas. Calculou o espaço entre os dois focos de luz e lá se foi ele e sua bicicleta. 

  Acordou no outro dia. E foi assim que o tal moço conhecera um automóvel. Várias vezes ouvi meu pai contar esta história e sempre com a mesma alegria.

  Meu pai nos dissera que o lugarejo era uma estação ferroviária por onde passavam os trens de ferro que levavam o minério de Minas Gerais para o Rio de Janeiro. Falou também que havia uma pedreira de onde se tirava talco. Eu ficava pensando como transformavam as pedras naquele pó tão perfumado.

  Na véspera ele avisara a minha mãe que não seria preciso os arranjos da matutagem, pois almoçaríamos numa pensão da pequena localidade que ele já conheceia de outros tempos.

 Chegou o tão esperado dia da nossa viagem à terra natal de nosso tio e lá vamos nós, meus pais e sete filhos dentro de uma Rural Willys.


  Nosso tio e primos também foram em comboio. Eu não perdia nenhum pedaço da estrada. Viajava também pelas paisagens da região.

  Passamos em um vilarejo com o nome de Lobo Leite e lembrei-me de uma colega que tinha exatamente este sobrenome. Até agora já havíamos passado também por Ouro Branco. 


  Abandonamos a estrada principal e embrenhamos por uma estrada que parecia abandonada. Só havia capim crescido nas margens. A fome chegara, a sede chegara e a tal Crockat de Sá não chegava. 

  De repente a estrada acabou, era só mato. Não havia nada, nenhum sinal do povoado. Nenhuma casa. Ninguém. Impossível continuar nossa jornada. Virar aquela Rural naquele lugar foi o feliz desafio do meu pai.

  E agora?

  
-Tô com fome ...Era um de meus irmãos.

  -Tô cansado, quero fazer xixi, era outro.

  -Tô com dor de cabeça– era eu.

  E uma ladainha de queixas se prolongou pelos caminhos de volta.

  
 Meu pai continuava na sua calmaria. Brincava, contava casos e dizia que a cidade do meu tio tinha acabado.

 Não vimos a tal Crockat de Sá embora digam que ela ainda continua lá.


(Ínicio de 2014)

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