quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

ANA

                                                               
Toda vez que a avó olhava aquela menina seu coração batia deferente. Assim como diferente era aquela menina. Parecia homem na valentia mas doce no conviver. Tinha nome pequeno mas tudo nela era grandioso. Às vezes tudo nela era aos avessos. 

Fora desde cedo abandonada pelo pai, um jovem das aparências boas e do caráter duvidoso. A mãe, uma menina que viera do interior, tomou todas as vergonhas do mundo para si e escondeu a barriga crescida. Chorou noites inteiras. Perdera o amor de sua vida ao dizer que esperava um filho dele.

A cidade grande não lhe trouxera sorte. Nada estava a seu favor. A família não perdoaria. Todos os santos e santas deixariam de lhe abençoar. A patroa dispensou seu trabalho de doméstica logo que percebeu o estado da jovem.
Mandou-a de volta com sua barriga.

Dorinha tomou rumo de volta para casa. Não havia palavras a dizer. O que estava feito estava feito. Quando o tio de Dorinha, irmão do pai, viera tirar satisfações, o pai do moço retrucou: "a moça de vocês estava a disposição e meu filho é homem e não deixou ela na vontade". 

E a vontade da moça era que tudo aquilo fosse apenas um pesadelo. Seu sonho acabou. Agora era ajudar a mãe na plantação do milho, da mandioca, do feijão e na colheita, à terça, do café. O pai havia falecido de anemia. A mãe ficara com seis filhos e Dorinha era a mais velha, tinha apenas catorze anos. Agora era ficar em casa escondendo as vergonhas.

A mãe chorava de desgosto. Tomava bronca dos outros se demonstrasse perdão e carinho para com a filha.

Foi chegado o dia de nascer aquela criança. Chamaram a parteira que morava na distância de uma légua dali. Tudo nos arrumados da boca fechada. Ela veio e deu as ordens na casa: muita água quente, muito pano limpo, uma tesoura e um barbante. Dorinha não chorou. Suportou as contrações que amiudavam no tempo e aumentavam na intensidade. Suas dores eram outras. E estas eram muito maiores.

Nasceu a menina. Ana seria seu nome. Dorinha, em seu silencio, já havia escolhido. Sua filha teria o nome da avó do Menino Jesus. Fora uma promessa em agradecimento à sua mãe. E a avó aqui da terra, quando ouviu o choro da menina, sentiu uma dor profunda no coração.  Nunca conseguira dizer daquela dor. Uma dor para sempre. Ali estava sua primeira neta. 

-"E se o padre não quiser batizar ?"  O falatório foi geral. Uns defendiam que a criança devia ser batizada. Outros diziam que se o padre batizasse aquele criança seria uma blasfêmia. A menina era filha do pecado e devia viver com o pecado. Por vários dias aquele assunto tomou conta do povoado.

O dia a dia naquela casa passou a ser uma mistura de alegria, de resignação, de vergonha, de carinho, de pecado. 

Todos viviam confusos com seus sentimentos.

Até que um dia a casa recebera uma visita nada esperada. O pároco. Ele queria conhecer a menina e esbravejou por deixá-la sem o batismo, o primeiro sagrado sacramento. Marcou a cerimônia e a criança fora salva. Acabou o falatório.

Ana cresceu rápido. Aprendeu as onomatopeias dos bichos e conversava com eles. Aprendeu a ler com a mesma facilidade. Perguntou uma vez pelo pai. Ele veio conhecê-la. Prometeu ajudar nos estudos e na criação da menina. Não apareceu outra vez nem ajudou em nada.

Dorinha casou com um bom homem. Ana pode escolher com quem ficaria. Para alívio da avó, fora a escolhida. A menina ia crescendo na beleza, na inteligência, na ajuda da lida da casa, nas iniciativas. De repente virou moça. 

O pai apareceu de novo. Ofereceu estudos na cidade grande. Ana ficou de pensar. Passados alguns dias sua decisão fora tomada. A avó sentiu aquela dor de novo. Seu coração estava a lhe dizer alguma coisa. Não sabia o que era. Sua neta faria quinze anos nos próximos meses. O pai prometera uma festa.

Dorinha despediu da filha com palavras de amor e de muitos conselhos. Chorou muitas vezes às escondidas. E muitas vezes o sono não viera. Ficava abafada e o coração não cabia no peito. Os dias se tornaram longos e tristes. Nunca falou com a mãe sobre seus sentimentos. Ainda era só vergonha e respeito.

Numa manhã comum receberam a notícia. Ana havia morrido. Bebera veneno. Fizera isto no dia de seu aniversário de quinze anos. 

Mais uma vez, naquele derradeiro dia, as conversas giraram em torno das normas religiosas.

 "Seu corpo poderia passar na igreja ? Poderia ser abençoado?"

 "Não seria contra a Santa Amada Igreja tal benção?"

Na confusão alguém aproximou de Dorinha e deu-lhe uma carta. Dentro do envelope havia um bilhete. Reconhecera a letra da filha. Uma tia, irmã do pai de Ana, encontrara tal papel deixado por ela. Entendeu a importância e decidira entregá-lo.

Ana contava que seu pai abusara dela desde a primeira noite em que a trouxera para sua casa. Fizera ameaças caso ela contasse os acontecidos. Por aqueles dias descobrira que esperava um filho. No desespero só encontrara aquela saída. Pedia que fosse abençoada por sua mãe e por sua avó. E pedia perdão a Deus...

E Ana nunca estivera tão linda quanto naquele dia. Sua avó lhe enfeitara os cabelos com flores de laranjeiras, suas preferidas. Dorinha lhe vestira com o vestido branco que lhe havia feito de presente para seus quinze anos.

A igreja encheu. Cada qual trazia uma flor branca e depositava sobre o corpo de Ana.

Na igreja, os fiéis nunca ouviram o padre falar palavras tão bonitas. E todos se ajoelharam para serem abençoados.


05/12/2014

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

QUER CASAR COMIGO ?


                     QUER CASAR COMIGO ?                                     

Nessa ocasião eu já era uma mocinha e, portanto, deveria agir como tal. Vestidos decentes, cabelos presos, embora meus cabelos fossem compridos e lindos, eles não poderiam ficar soltos pois seriam provocativos. Posturas discretas e boca fechada. Assim me diziam que eu deveria ser. Ou seja, eu não poderia ser eu, apenas estar.

No tempo devido minhas férias chegaram e lá se foram nós para nossa terra natal. Haveria de ver muitos amigos e amigas e eu, nesse outro tempo, também estava interessada por aquele moço cuja voz eu jamais ouvira. Ele morava num sítio bem próximo à praça da minha pequena cidade. Ouvi dizer que ele havia ido trabalhar em São Paulo. Será que deixaria a mãe sozinha? Será que ele viria nestas férias? Será que ele gostava de mim? E eram muitas as minhas dúvidas. E nenhuma resposta.

A costureira havia feito um vestido que falava por mim. Era um tecido de crepe de algodão, que chamavam de “anarruga".  A estampa e o modelo eram “mamãe Dolores”. A novela "O Direito de Nascer" havia sido um grande sucesso na televisão e trouxera a famosa personagem com sua simplória indumentária.  Eu guardara aquele vestido para um possível encontro. Ele ficou muito lindo e eu fiquei muito bonita dentro dele.

Da ampla janela do sobrado, onde meu Tio morava, eu avistava toda a praça. Ficaria ali até ele chegar e, então, desceria e provocaria um encontro.

Ele não apareceu.

Minha prima mais velha do que eu, criada por este Tio, veio e me deu um recado. O Afonso queria conversar comigo. Ele era já um moço feito, com profissão, uma casa construída e terrenos e....sei lá mais o quê.
Lá vou eu. Na ausência daquele, chegou o outro. Eram primos e eu nem sabia.

Afonso era um belo rapaz. Educado, gentil, alegre, filho de boa família. Havia parado com seus estudos muito cedo e fora trabalhar. Conseguiu vencer na vida e, agora, queria se casar. Ele me falou belas palavras e razões de sua escolha. Eu ouvi, calada. Fiquei aturdida.

Entre a alegria do amor declarado e a tristeza da falta do outro, escolhi e cai no primeiro. Durante o resto de minhas férias fiquei envolta numa paixão que não era  minha.

Então voltei para o mundo dos estudos, das leituras e da minha rua.
Alguns dias depois uma carta chegou. Um pedido de casamento. Eu com apenas quinze anos. E agora?  Pensei, pensei e pensei. Então respondi ao meu pretendente dizendo de minha pouca idade, dos meus planos quanto aos estudos pois eu queria ser médica e do fato de eu não estar tão certa daquele amor. Aliviei minh’alma.

E a vida continuou. 

Até que, passados outros dias, cheguei em casa após minhas aulas e encontrei minha mãe e aquele minha prima que naquele tempo fora morar conosco para o curso de normalista. Estavam com caras de Madalena arrependida. Acuei e fiquei amedrontada.

Perdi o apetite.

Minha mãe me chamou para uma conversa. Repreendeu-me duramente por ter desfeito do rapaz, por ter recusado um pedido de casamento “daqueles” e de ter escrito uma carta desaforada. Mandou que eu escrevesse outra carta pedindo desculpas e aceitasse o pedido.  Minha prima, desde sempre muito católica e temente a Deus, havia feito aquilo comigo. Na certa era ela quem queria se casar.

E eu chorei pelo não entendido de nada. Eu nada sabia de noivados e casamentos. Sabia apenas do sentimento gostoso que me acometia quando pensava naquele outro que eu jamais iria ver.

Tentei  em vão escrever e pedir desculpas a Afonso. Nunca soube se ele me perdoou. Só sei que ficou ainda mais rico.

O tempo passou e eu não esqueci de Afonso. Lembrara dele com carinho e reconhecimento por suas conquistas na vida. Pedia a Deus que ele me esquecesse e que encontrasse uma moça merecedora de seu valor.
Mas da minha prima eu só lembrava cheia de raiva.

Meu lindo vestido continuou comigo. Acho que mamãe Dolores ficou do meu lado. Aprendi muito dentro de  seu vestido.

21/09/2014