terça-feira, 16 de setembro de 2014

UM HOMEM, UMA BATINA E MUITOS BOTÕES


        UM HOMEM, UMA BATINA E MUITOS BOTÕES
  
    Acabo de saber da morte do meu Tio.  Meu carro está cheio de sacolas com roupas, livros, agendas, pães e algumas flores para comemorar a chegada da primavera e enfeitar minha casinha na roça. Meus três filhos estão em compromissos distintos e em cidades distintas. Acesso minha rede social e vejo o anunciado nesse tempo real.
    
   E agora ?
  
  Decido embrenhar as duas viagens: seguir até o sítio e cumprir tudo que eu havia planejado. Depois seguir para a cidadezinha onde meu Tio fora pároco por mais de meio século. Lá vou eu sozinha pelas estradas nas serras de Minas.
    
  Mas o inesperado chega sem pedir licença e molha meu rosto das lágrimas acumuladas ao longo do tempo. E é no tempo que viajo agora.
    
  Vejo um homem doce, esperto, amável, acolhendo e recolhendo famílias em sua casa. Artioso nas brincadeiras. Nunca lhe faltando sobrinhos seguidores, aliados para suas travessuras.
  
 O jipe era seu companheiro. Com ele fez grandes viagens. Aprendera a tocá-lo por insistência e desafios próprios. Nesse mesmo aparelho de locomoção vários sobrinhos se tornaram grandes motoristas. Aprenderam a dirigir, obviamente com o tanto que meu tio errava. Dizem alguns que, naquela época, o órgão responsável pelo trânsito na cidade grande, liberava sua carteira considerando a utilidade de tal documento para aquele padre das trilhas de terra.
  
  Meu Tio era de poucas palavras e de muitas extravagâncias.
  
  Lá em casa, todos nós esperávamos as férias com a certeza de que ele viria nos buscar para o convívio com os de lá. Não sei quem aproveitava mais aqueles dias, se nós ou ele a brincar conosco.

 Lembro-me da correria em volta da pequenina mesa nas noites escuras na fazenda onde ele nascera. Sorrateiramente, ele apagava a única  lamparina e se deliciava com aquele que fatalmente cairia nas escadas daquela imensa sala de minha infância.

 Mas o que mais me intrigava eram os botões da batina do meu Tio quando ele virava Padre. Todos do mesmo tamanho e rigorosamente pregados com os mesmos espaços entre eles. Achava aquilo uma verdadeira obra de arte e beleza. E com arte também era feita a transformação do meu Tio em Padre.

 Assistia minha avó, com seus olhos brilhando de orgulho diante daquele filho tão querido e especial, atender aos fiéis e seus pedidos de orações, de um café com quitandas ou de, simplesmente, a benção do Padre.

 Ele recebia a todos em sua casa, com conselhos, paciência, dignidade e, às vezes, com pulso forte por alguma ovelha desgarrada. Eu achava tudo àquilo de muita honradez.

 A missa ainda preservava muitas orações em latim e pensava no tanto que meu tio era inteligente e culto naquela língua tão "dificium".

 Entretanto o que eu mais gostava era quando aquele Padre, que era meu Tio, começava a cantar durante a missa. Era um sinal. Logo ecoava o som do harmônio da Julieta, as vozes graves do Tio Mário, do Maurício, irmãos de sangue e de musica. Tinha também a belíssima voz da Maria Francisca, filha da Didita. E todos os fiéis se rendiam àquele magnífico som e se arriscavam fazer parte naquele coral sacro.

 Ainda posso ouvi-los cantar.

 Nos finais de semana, toda a praça ficava cheia de pessoas para assistir as missas, ouvir as pregações e os avisos. Passeavam pelos jardins e faziam as visitas aos compadres e comadres.

 Lembro-me da missa das 11 horas, aos domingos. Ficava da janela da casa paroquial. Meu Tio sabia das coisas. Naquela hora os moradores das regiões rurais já haviam cumprido seus deveres com a ordenha do gado e outros trabalhos diários de seus sítios e fazendas. Assim poderiam vir participar da cerimônia, ouvir os recados e serem abençoados.

 Este era meu Tio Padre.

 Porém se meu Tio era amado pelos sobrinhos, o Padre não agradou a todos, certamente. Afinal ele era só um homem. Mas sempre teve teimosia e dignidade para assumir as consequências de suas escolhas.

 Padrinho de muitos, Tio meu e de tantos outros, Padre Joãozinho para quase todos. João Batista, filho de D Nhá, irmão de minha mãe, grande amigo de meu pai. Como pode um só homem ser responsável por tantas almas? Uma responsabilidade de gigante.

 Ele também foi responsável pelo percurso meu e por meu gosto pelo néctar dos deuses. Pois me lembro de quando roubávamos o vinho doce da adega de sua casa, lugar frio e escuro para onde éramos levados nos castigos de crianças. Também me lembro da sua irritação, anos mais tarde, quando me viu com um livro de Freud nas mãos. Fiquei me perguntando o que ele deveria saber do Pai da Psicanálise. 

 Meu Tio Padre foi um homem espetacular.

 Agora no céu já não falta o iniciador das músicas, a cantoria já pode começar.

 Aqui na terra ficamos órfãos, mas abrilhantados pela convivência.

 Ficamos sem meu Tio e sem nosso Padre, mas ficamos todos com nossos botões...

Um comentário:

  1. Viajei.. Peguei a estrada..... Me senti livre e contei botões... Lindo relato... lindo conto... Antonia

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