quinta-feira, 11 de junho de 2015

AGOSTO DA MINHA INFÂNCIA

                                

 
                         AGOSTO DA MINHA INFÂNCIA

     

      Cada época do ano tinha suas brincadeiras e mistérios em minha rua.
   Agosto era o mês dos ventos. Eu ficava ouvindo as folhas das árvores no fundo do quintal e me solidarizava com as mesmas no balanço e no desarranjo para lá e para cá. Da janela da cozinha via o majestoso abacateiro no terreno da vizinha na divisa com nossa casa, a envergar todo seu corpo verde escuro. Havia também o pé de limão rosa – ou limão capeta? - que tombava quase todo para o nosso lado. Nosso quintal era o menor que havia por ali, mas era o nosso quintal. Ali minha mãe tinha uma modesta horta, um galinheiro e um simpático canteiro que margeava o muro e onde ela plantava suas flores favoritas. Eu não achava graça nas jardineiras. Apesar dos coloridos, havia o forte cheiro amargo tal e qual o boldo com suas folhas rascantes.

    Agosto era o mês das poeiras a invadir nossas casas e desesperar Dora com suas limpezas diárias do pó nos móveis.

    Era o mês do retorno às aulas, o mês do desgosto e do azar no dia treze e nas sextas-feiras. E nem me fale quando o treze caía numa sexta-feira.

   Aprendi e não esqueci nunca mais que agosto, sendo o mês oito, é o primeiro mês par com trinta e um dias assim como os demais meses pares a partir de então, ou seja, outubro e dezembro.

   Minha mãe sempre lembrava que o dia trinta era consagrado a Santa Rosa Maria e que, nesse dia, deveríamos podar as roseiras.

   E agosto, como dizia meu pai, era o mês dos cachorros doidos; e que tivéssemos muito cuidado caso víssemos algum deles com o rabo entre as pernas. Isto era sinal da raiva, uma doença incurável e que as pessoas morreriam loucas caso fossem mordidas por um deles.

   E havia o feriado religioso no dia quinze, dedicado a ascensão ou assunção de Nossa Senhora. Sempre tive essa dúvida. Hoje, com minha folhinha de Mariana do meu lado, ficou tudo mais fácil e ela me ensinou que se trata da Assunção de Nossa Senhora. E fora num dia quinze de agosto que morreu a mãe do meu pai alguns anos depois da minha infância. E ela era toda Nossa Senhora da Conceição. Por isto acho que Nossa Senhora deve ter auxiliado minha avó em sua subida aos céus. Ai seria a ascensão de minha avó até seus santos e santas no céu.

   Por outro lado, seria também nesse mês, num dia vinte e dois de um futuro distante que minha terceira filha viria ao nosso mundo a me encher de alegria e cuidados maternos. Eulália, “eu digo”, e ela é, realmente, a dona da palavra. “Você vai trabalhar e deixar sua menor filha sozinha?”, seria ela, num bilhete escrito num pedaço de papel, a me pedir que não fosse trabalhar.

   Também havia o dia vinte e quatro, dia do aniversário do meu primo José Eduardo. Este lindo e educadíssimo mocinho, que além de me emprestar seu livro de inglês caprichosamente encapado com um refinado plástico azul, me introduziu ao verbo “to be, “I am, you are, he, she, it is ” e por aí afora. Desde então jamais esqueci dele nesse dia. Obrigada pela disposição e paciência. E eu não fiquei de recuperação, conforme pensava, com aquele professor da língua tão difícil, do colarinho tão apertado e do corpo miúdo dentro do seu terno azul tão desbotado. Ele não era Arlindo, que fora meu melhor professor de português e quem me introduzira no mundo dos livros. O outro era o Solindo. E nenhum deles  era lindo.

   Mas eram as pipas, ou papagaios ou raias que eu mais gostava neste mês de agosto. Meu pai confeccionava verdadeiras obras primas com taquaras, papel de seda e grude. Até eu aprendi a fazer tais maravilhas que voavam pelo céu dos barrancos próximo ao Tiro de Guerra.

   Os meninos brincavam em bandos e disputava qual deles conseguiria empinar sua pipa de maneira mais rápida, colocá-la mais alto e fazê-la dar os mais extravagantes rodeios. E eu ficava com a minha raia próxima ao chão. E daí ela só saia quando eu corria  deslocando o vento. Mas eu não tinha jeito nem sabedoria e logo ela se estraçalhava. Nem me importava, pois eu aproveitava os pedaços de papel de seda e os colocava na linha próximo às manivelas de madeiras ou mesmo latas de óleo vazias que serviam para enrolar as linhas. Só para ver o vento fazê-los rodopiarem até tão alto quanto às pipas. Pareciam rabiolas ou barbelas ao longo de toda a linha.

    Na minha cabeça fértil eu imaginava que naqueles retalhos de papel havia recados de toda sorte de sentimentos para o infinito. Não perdia sequer um pequeno avanço dos tais pedaços de papel a escalarem rumo aos céus. E me debulhava em tristeza caso um deles caísse antes de chegar ao destino sonhado.

   Nesse tempo eu estivera apaixonada por uma meia dúzia de meninos da minha rua. Eram negros, preferencialmente, já que na minha rua eles eram a maioria, os mais bonitos, os mais amigos e os mais charmosos. Então cada papel tinha seu destinatário e um escrito singular. E eu ficava a desejar um determinado desfecho para cada qual.

      Voltávamos para casa já no finalzinho daqueles sábados após nosso festival de cores e formas no céu que já começava a se tornar avermelhado com os raios do sol a esconderem com a escuridão da noite.

   Eu dormia sonhando com os bilhetes fantasiosos e as paixões infantis.   


   E, quando setembro chegasse, haveria de ter muita chuva. Obviamente trazida pelos ventos de agosto.

  Ainda hoje envio papéis ao vento com recados inimagináveis e cheios de amor.





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