quinta-feira, 13 de julho de 2017

A Galinha da Gigi


Dona Graça, assim que ouviu o som do seu telefone fixo, abaixou o fogo de suas panelas, limpou as mãos no seu branquíssimo pano "bate-mão" e rumou para a sala de jantar.

-Boa tarde dona Graça. Aqui é a Gigi. Tô precisando da sua ajuda. Minha galinha pulou a cerca e voou para o seu quintal. Será que a senhora deixa eu ir ai para eu tentar pegar a danada?

-Claro! Pode vir.

Assim respondeu a vizinha com seu costumeiro jeito de boas relações com todos por ali.

Gigi não demorou a chegar. Estava esbaforida. Trouxe o marido junto. Vai que a galinha resolve pular daqui para outros terreiros. Há de ter um homem para correr atrás.
Procuraram a tal da galinha por todo lado. É necessário dizer que o terreiro da Dona Graça é muito grande e desnivelado. Tem lá um buracão cheio de bananeiras e outros tantos de pés de frutas, escondidos. Quando os filhos dela eram pequenos aquilo ali era um dos divertimentos favoritos. Escorregavam sentados em papelões e chamavam tal brincadeira de "esquibunda". Mas, lá se vão muitos anos, e não seria nada divertido escorregarem com a bunda no chão atrás de uma galinha fujona.

De repente eis que a danada apareceu e lá se foi o marido para agarrá-la. Porém, ela num total desdém por todos, deu uma sensual rebolada, bateu asas e voou bem por cima da cabeça do homem e, mais uma vez, desapareceu no buracão.

Continuaram na incansável procura até o escurecer. E a donzela daquela galinha sumiu mais uma vez. Por hora desistiram. Agradeceram o trabalho dado e pediram se poderiam voltar a procurá-la no dia seguinte.

Na manhã seguinte o telefone tocou e era a vizinha perguntando pela galinha.

-Ela apareceu por ai? Estamos escutando o piar dela.

Afinal Gigi conhecia todos os pios de suas galinhas e aquela Isa Brown tinha fama de ser tranquila além de não falhar de botar diariamente. Era preciso encontrá-la. Custou caro por causa de sua raça famosa.

E lá se foram em mais um dia à procura da galinha avermelhada. Outra vez e nada dela aparecer. Foi então que o marido de Gigi teve uma ideia muito das boas. Armou uma arapuca e colocou grãos de milho lá dentro. Não falharia aquela invenção dos seus tempos de menino na roça para pegar passarinhos. Certamente dará certo com a dona galinha.

Durante todo aquele dia o telefone de Dona Graça não parou de tocar. Gigi queria saber se a dita cuja caiu na arapuca. Nada. Talvez, além de ser botadeira, ela também tivesse miolos na cabeça e não cairia naquela esparrela de arapuca.

Dois dias depois, quando foram ver a arapuca armada, tinha uma pomba presa. Mas da galinha nenhuma notícia. Ninguém dava fé de ter visto a danada.
Entretanto, nesta hora, apareceu a margarida, ou melhor a galinha fujona. Lá estava ela dentro do buracão. Não foi sem dificuldades que eles pegaram a referida. Ela cacarejava e esperneava e se debatia contra seus perseguidores. E logo viram quatro ovos num ninho improvisado mas muito bem feito. Com certeza ela pretendia chocar tais ovos e se tornar mãe.

Enfim todos ficaram satisfeitos. Gigi deu belas gargalhadas com sua galinha fujona debaixo dos braços.

Agradecidos lá se foram todos.

Eu, mais que uma testemunha ocular do "veredicto" fato, atendi alguns do telefonemas de Gigi e até me arrisquei no buracão de Dona Graça para ajudar na busca daquela terrível galinácea. Afinal Gigi é uma amiga dos tempos de menina e muito querida por todos dali. Porém, tenho cá por mim, que a galinha gostou de brincar de esquibunda e não queria voltar para o galinheiro e ser importunada por aquele safado galo carijó.

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