sábado, 10 de maio de 2014

A MÃE



A    MÃE


  Mais uma noite de plantão e lá vou eu atender uma paciente encaminhada dos confins das Minas Gerais.

  Antes de convidá-la ao atendimento leio os dados de seu prontuário, uma rotina minha que sempre considerei imprescindível. Vejo que, junto ao mesmo, está anexado um relatório. A referida paciente já era esperada naquele dia, uma vez que o município de origem fizera o contato acerca da possibilidade de vagas para a internação da mesma.  

  Leio o documento, feito com profissionalismo, objetividade e muito cuidado, então vou até a nossa mulher e a convido a entrar no consultório daquele hospital onde trabalho há mais de uma década. Era quase meia-noite.

  Tratava-se uma moça muito jovem, acompanhada da mãe que também é convidada a participar do atendimento. 

  Maria da Conceição era seu nome. Estava tranquila, lúcida, bem ambientada e cooperativa com a anamnese, embora um pouco desconfiada. Disse-me ela que estava "desprevenida" quando aquele povo fora visita-la e, por isto, sua filha de 5 meses estava daquele jeito.

  -” Qual jeito ?”  Perguntei-lhe.

  Ela esquivou-se e me disse que já estava tudo bem. 

  Contou-me então que eles a estavam molestando, chamando-a de “Maria Sujeira”, expondo suas intimidades e degradando seu corpo. Ela já não suportava mais tantos insultos e desaforos. Trancou-se dentro da casa que não era sua. E, de lá, não saiu mais. 
  
  O povo ao redor observou a casa fechada e os esburacamentos  progressivos nas paredes daquele que não era seu lar. O dono da casa  chamou por sua inquilina, sem sucesso. A vizinhança tomou conhecimento e alardeou. 

  Os dias foram passando naquela agonia para todos.

  -“E a criança lá dentro?” Interrogavam alguns.

  -”O que será que ela tá fazendo com a menina ?” Pensavam outros.

  Maria da Conceição passou a ameaçar quem tentasse aproximar-se. Eram gritos e invocações aos demônios para que eles a deixassem em paz. Atiravam-lhes pedaços de tijolos, telhas quebradas e outros objetos que encontrava pela frente.

  A prefeitura da localidade ficou sabendo do caso e convocou reunião naquele mesmo dia com os órgãos competentes. 

  Havia uma mulher enlouquecida e uma criança em cárcere privado. Teria que haver uma solução e com a devida urgência que o caso exigia...

  E ali estava Maria da Conceição a me contar sua desventura.

 Mas outro caso, ao lado, também ia aparecendo. Meus olhos dançavam, ora para aquela que contava sua história e, ora para a outra, a mãe. 

 Esta permanecera alheia a tudo e todos até então. 

 Debruçada sobre a mesa, quase encostando-se no verso do monitor onde eu anotava aquele trabalho. De costas para sua filha. Enquanto aquela falava, esta fazia lentos  gestos com as mãos. Eram amplos movimentos circulares ritmados como se obedecesse notas musicais. As mãos andavam da mesa ao chão e deste às paredes e voltavam à mesa, ao chão, à parede ... 

  Não levantava a cabeça que continuava abaixada ou em direção aos caminhos que suas mãos percorriam.

  Observei que a mulher usava um pedaço de tecido esgarçado como lenço que tentava conter seus cabelos desgrenhados e volumosos sob uma pretensa boa aparência. 

  Ela, certamente não ouviu uma só palavra do que havia sido dito ali dentro. Era só ela com ela.

  Já nem sabia para qual delas eu olhava ou atendia.

  Olhei para dentro de mim e viajei nesta hora com Guimarães Rosa, com “Sôroco, sua mãe, sua filha”.

  Então chamei aquela mulher-mãe pelo nome; ela me dirigiu um olhar doce e abriu um sorriso de contados dentes.

 Ganhou coragem, levantou-se, contornou a mesa acotovelando-se nela, bem junto a mim, apontou a tela ligada e arriscou a pergunta:

 -“Isto aí é que é um computador?”


06/05/2014

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