quinta-feira, 1 de maio de 2014

PALAVRAS E CARTAS



PALAVRAS E CARTAS

   Nunca consegui me relacionar bem com as palavras faladas. Por isto ficava atenta escutando as pessoas. Achava aquilo de falar uma arte. 
      
   Mas eu precisava falar. Era impossível ficar calada e eu gostava muito de falar. Entretanto, as palavras me traíam e eu acabava fazendo uma grande confusão. Eu sempre abria a boca na hora errada, com as pessoas erradas, no local errado e falava tudo errado. 

   Muitas vezes eu tropeçava nas palavras, o tombo era inevitável e deixava profundas cicatrizes. Então, eu ficava acabrunhada de tanta besteira que falava e me recolhia. 

   Se eu tivesse que dar uma resposta ela certamente sairia ao avesso. Outras vezes eu caía das minhas próprias palavras e assim era uma queda atrás da outra.

   Passei a ficar cada dia mais calada. Aprendi a escutar e a conversar comigo mesma. Viajava e tagarelava com meus pensamentos. 

   Mas nem tudo estava perdido, eis que me surgem, milagrosamente, duas saídas.  As palavras escritas e as cartas.

   Na minha infância meu pai comprava muitos livros e, antes mesmo de aprender a ler, eu ouvia muitas histórias lidas e até representadas por ele ou por minha mãe. 

   Aos 13 anos, no colégio, participei de um júri simulado e nosso réu era o ex-presidente Getúlio Vargas de quem eu nada sabia. Coube a mim a defesa. Recorri à biblioteca municipal e li tudo que me caíra às mãos. Conversava com meu pai que fora um grande admirador de suas ações junto aos brasileiros.

   “Minha filha foi ele quem criou a carteira de trabalho, foi ele quem criou e instalou a Companhia Siderúrgica Nacional, a CSN, em Volta Redonda, foi ele quem criou as leis trabalhistas,  foi ele quem instituiu o voto feminino no Brasil,  ele era chamado de pai dos pobres”.

    Ele falava tudo isto se orgulhando daquele que para ele havia sido o melhor presidente do Brasil, depois de Jk "é claro" apontava ele. Mas eu precisava saber muito mais. Eu precisava saber o que ele deixou de fazer  ou o que fizera de errado. 

    Então, meu pai tivera uma grande e salvadora ideia. Pediu que eu escrevesse uma carta a um amigo advogado que o sabia getulista ferrenho. Expliquei o meu trabalho e pedi ajuda. 

   A resposta viera de imediato e os jurados absolveram meu cliente por unanimidade. Daí em diante passei a ter sempre uma carta nas mangas. 

   Então, comecei a escrever cartas, muitas cartas. Cartas para minhas amigas, cartas para meus irmãos que já haviam saído de casa, cartas para artistas de televisão, cartas para quem te quero. E assim me reconciliei com as palavras, senão faladas agora escritas. Outras dessas cartas também fizeram histórias.

  Aos 17 anos, logo que saí de casa para morar em outra cidade, escrevi para minha mãe dizendo-lhe da dolorosa sensação de que eu jamais voltaria a viver com ela e minha família. A tristeza que senti diante daquela constatação era imensa. 

  Dois dias depois de colocada tal missiva nos correios gastei o parco dinheiro que havia levado e voltei à minha cidade. Cheguei a minha casa antes daquela carta. Fazia-se necessário poupar minha mãe daquela dor tão avassaladora. Guardei a carta, intacta, e o tempo encarregou de perdê-la. 

  Mas não perdi o interesse pelas cartas, elas constituíram uma maneira de eu comunicar com o mundo sem tropeçar e cair das palavras.  O gosto por elas espalhou-se e eu era convocada a escrever cartas de todo jeito, eram cartas de amor, cartas de desavenças e muitas cartas de saudades de filhos para as mães.

 Passados alguns anos, já quase na reta final de meu longo curso, fui morar com uma colega que viria a ser minha grande amiga e afilhada de casamento. 


 Era numa vila com todas as casinhas iguais, por onde não circulavam veículos. Havia ali uma tranquilidade aconchegante. 


 O distanciamento afetivo dos meus familiares havia sido acomodado. Mau sinal. As cartas tornaram-se raras. Minhas irmãs haviam se casado e uma delas fora para São Paulo. 


 Eu estava deveras sozinha. 

 Então, comecei a escrever cartas para mim... 

Tornei-me destinatária e remetente de uma só vez. Fiquei amiga de mim.

E foi assim que, na solidão dos dias longos, eu esperava pelas minhas cartas.

Ainda hoje escrevo cartas...



Madrugada  de 18/04/2014

3 comentários:

  1. Maravilha ter sempre um conto de rivelli para ler.valeska.

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  2. Também mitiguei meu silêncio forçado em cartas. Meu primeiro amor as recebia com até trinta páginas. Faladas ou escritas, importante é fazer jorrar as palavras.

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