quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

TUAREGUE


                 
                  TUAREGUE
   

 Um velho amigo, num raro e recente encontro, me contou dois fatos que lhe  aconteceram e lhe marcaram para sempre.  

  Segundo ele, um destes acontecidos, teria sido determinante na mudança de seu modo de viver. Pois bem, ele tivera um estranho convite para um trabalho diferente de tudo que já havia feito na vida.
  
  Para tal deveria incluir mais uma tarefa que lhe exigiria muitos estudos e tantos outros deveres. Aceitou o desafio numa época em que outros trabalhos já lhe ocupavam quase todo seu tempo.

  Enquanto Kel Asuf falava, observei que guardara lembranças vivas do que dizia. 

 Mãos a obra e lá fora ele em busca do que se vislumbrava. Haveria de pensar muito, de estudar muito e ele não recuou diante do desafio. Embrenhou-se  naquela que seria uma busca eterna.
  
  Este fato se deu quando meu amigo estava por volta dos seus quarenta anos. Com alguns cursos superiores concluídos e uma belíssima carreira acadêmica, encontrava-se ele num momento pessoal delicado e doloroso.

  Estava a deriva, sem eira nem beira. E, numa noite, por este tempo, saíra pelas ruas da cidade que adotara como sua. Cidade esta também adotada pelos taubateanos que a fundaram e onde os sinos falam, qual seja nossa mineira São João Del Rei. Era quase meia-noite e meu amigo se fazia perdido dentro de sua mãe terra. Acabara de findar um casamento e perdera seu bem e seus bens. Decidira caminhar sem rumo. Fez-se necessário vagar para o pensar.  

  Entretanto uma cena naquela noite lhe chamara atenção. Uma mulher sozinha num bar qualquer, numa rua qualquer. Ele aproximara, pedira uma bebida alcoólica qualquer. Não era feitio do meu amigo o uso de bebida alcoólica. Eu sempre soubera disto. Eles começaram a conversar; assuntos vários. Ela, uma turista de outras vindas àquela cidade. Ele, um grande prosador. Deveras, a conversa alongou-se pela noite. Falaram das dores, dos amores, dos corpos e das almas.

 Meu amigo então fora convidado por tal mulher, já na entrada da madrugada, a acompanhá-la a um local por entre ruelas e becos. Tratava-se de uma casinha muito simples e com pouca iluminação.

 Viera atender-lhes  uma velha senhora que, após olhar bem o meu amigo, parou por um momento e lhe disse:

"-Por onde você esteve até hoje ? Eu estava te esperando há tantos anos que perdi a conta”. 
  
 A partir daquele momento a vida deste adulto jovem tomara outros rumos. 

 Ele que já viajara pelos números, pela filosofia, pelos referenciais da física, pelo academicismo, então, vê sua vida debulhada nas mãos de uma senhora que jamais vira.    
Ali nascera um novo sujeito. Um sujeito que vai buscar numa alma perene  um complemento salvador para sua imperfeição.

 Bem, neste mesmo nosso encontro, Kel Asuf, falara de um outro fato. Eu era toda ouvidos. Este também se passara com ele, mas ainda em sua tenra infância.

 Só lembrara que vinha sendo acometido por crises asmáticas e que a família não provia de recursos financeiros para socorrê-lo e, talvez, a cidade também não tivesse recursos médicos para atendê-lo. A mãe, quando percebia que o filho estava chiando os peitos, tirava-o de sua cama quente e o colocava no chão frio de terra batida da sua casa. Era costume  naquela época aquele fazer... dizia-se que o frio fazia melhorar a asma. 
  
 Porém acontecera que, numa dessas terríveis crises, o meu amigo-menino sentiu-se sufocar e pensara que estivesse morrendo. Tivera uma visão, ou pesadelo, no qual escutava a aproximação de um trem de ferro que vinha em sua direção e que poderia esmagá-lo.

 Obviamente que, os dois fatos e suas consequências no meu amigo, me fizeram pensar bastante. 

 Esqueci-me de dizer que nos conhecemos desde crianças. Éramos vizinhos.

 O pai de Kel Asuf trabalhava na Central do Brasil e eu o via chegar, às tardes, de seu trabalho com aquele ar de muito cansaço. Às vezes vinha com a respiração ofegante subindo a ladeira de nossa rua. Havia épocas que ele bebia muito e, então, eu o via chegar cambaleante em casa. Criava muitos passarinhos e eu adorava ouvi-los cantar quando passava na frente de sua casa.

 A mãe sempre fora uma mulher de grande inteligência e ferina nos cuidados com os filhos. Não sei se eram oito ou nove filhos, mas lembro da barriga crescida antes de nascerem os mais novos. Admirava o jeito dela defender os filhos mesmo que, em alguns momentos, tivesse medo da braveza dela.

 Voltando aos fatos contados, vejo que meu amigo e vizinho não ligara os dois fatos. Das mãos daquela velha senhora desconhecida, no adiantado de seu tempo, ele teria encontrado a origem do sopro de vida que lhe salvara do esmagamento do trem naquela noite de sua infância. 

 Entretanto, se por um lado sentiu-se iluminado naquele instante, por outro sua escolha, certamente, trouxera consequências. 

  Será que esse Tuaregue, assim como seu povo no deserto de Saara, é "um homem livre" ou é " um abandonado por Deus"?
   
  Ou será que Kel Asuf manteve-se impermeável e opaco, às sombras da luz prometida?


03\04\2014

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