terça-feira, 13 de outubro de 2015

FARINGITE ALÉRGICA



                ...e minha voz  foi embora.


   Deveria cumprir um plantão de vinte e quatro horas na noite de um sábado. Eu que já vinha perdendo minha voz desde o dia anterior após uma chuva forte que caiu sobre Betim, a perdi de vez. É sempre assim. Quando as águas caem sobre a terra seca. A poeira e seu cheiro forte  sobem após os primeiros pingos d'água e entram nas minhas narinas. Então começa a alergia... Quando não obstrui meu nariz, me traz irritações na garganta.

  Ontem havia conseguido dar o meu plantão semanal, também de vinte e quatro horas. Hoje não sei...

  Tento manter a calma, afinal terei que atender até amanhã a noite numa troca de plantões feita com um colega paulista.

  Já no primeiro atendimento, meu companheiro de trabalho médico, gentilmente me diz: "Pode deixar que eu atendo". E lá se foi ele.

  O telefone toca e não consigo me fazer ouvida. O supervisor de enfermagem me pede então que atenda dois pacientes na ala tal pois estavam nervosos e insones. E agora lá vou eu sem minha voz. Com a ajuda dos técnicos ainda me fora possível avaliar aqueles dois jovens.

  Logo chega outro paciente externo para atendimento em urgência. E meu colega mais uma vez se dispõe a atendê-lo

  "Isto não está certo. Não é justo meu colega fazer o trabalho dele e o meu", pensava eu.

   Então peço ajuda, via o terrível WhatsApp, e uma colega se propõe a vir fazer o plantão das doze horas do dia seguinte. Não consegui dormir esta noite. A tosse seca, o mal estar e a vergonha por não conseguir dividir o trabalho com meu colega tiraram meu sono.

  No domingo cedo vou embora para casa e minha filha telefona para meu mais novo e querido médico, Dr D'Ávila, meu sobrinho que estava de plantão numa UPA de BH. E ele que se dispôs a me atender. Afirma que, provavelmente, eu não teria condições de trabalhar e que teria direito a cinco dias de afastamento. 

   Decido ir até ele. No caminho a esposa telefona e diz que ele iniciara com uma violenta cólica renal e que já estava levando-o para outro hospital. 

  Eu não iria voltar para casa daquele jeito!!!

  A quem pediria ajuda? Tenho várias colegas médicas que jamais recusariam me atender naquela metade de manhã de um domingo de sol ardente e eu doente.

  "Vou tomar café com meu filho e sua esposa", decido eu. 
   
   Minha filha, agora motorista, faz contato com o irmão que se alegra com tal visita inesperada. Eles haviam ido buscar os filhos do primo médico para cuidar eles. Passamos no supermercado e compramos frutas e pães. Adoro pães e padaria.

   E não saía nenhum som com minhas palavras.

  "Repouse sua voz e beba muita água", foi a orientação do meu sobrinho já hospitalizado.

  Então começa um dia ainda mais inusitado. Havia esquecido meus óculos, meu aparelho de audição e não conseguia falar. Eu estava deveras perdida.

    Só havia uma saída: brincar com Tiago e Alice, de dois e sete anos respectivamente. Tiago não entendia porque eu falava sem som e, ao conversar comigo, também o fazia falando baixinho. 

   A mesa do café da manhã foi posta e nos fartamos de deliciosos pães, biscoitos, sucos, leite e queijo que nunca pode faltar nas nossas refeições da manhã e da tarde e do almoço e do jantar.

  A seguir brincamos construindo carrinho e aviões com as peças de Lego. Fizemos aviões de papel e fizemos várias viagens pelos espaços daquela sala. Rolamos sobre o colchão no chão. Outras vezes ficávamos observando Dori, Nina e Spock, os gatos da minha nora, com seus pulos e olhares felinos.

  Numa determinada hora me fingi de ninja e, com Tiago, ousamos dar golpes no ar e gritos mudos em japonês e mandarim. Lutamos contra os guerreiros samurais do "mal" que, nesta hora, estavam representados por minha filha. E ela, fingindo desespero, tentava amparar tais golpes desengonçados de dois ninjas super poderosos.

   Alice brincava e sempre estava ao lado da futura mãe de meu neto já a caminho. Meu filho cuidava do almoço e, a todo instante, era requisitado pelo afilhado ninja e apaixonado por carros. Minha filha, curinga, ajudava a todos.

   Então chega a informação de que o pai do ninja e da princesa Alice seria operado e o pedido para que  os dois pudessem continuar ali até o dia seguinte.

   A TV não fora ligada em nenhum momento e nem as crianças pediram para ver algum programa. Fiquei orgulhosa da educação que deveriam receber em casa.

   Após o almoço a ninja mais velha e sem voz apagou por algum tempo. Efeito do cansaço, das lutas e dos chás ingleses que meu filho me dera durante todo o tempo que estivera com eles até então.

   Ao anoitecer deixei-os e voltei para minha casa. Tomei um medicamento indicado. Tomei um banho e deitei. Mais uma vez o sono não chegou. Os pensamentos não paravam, iam e vinham. Faziam arruaças na minha cabeça. Queria entender aquelas últimas vinte e quatro horas. 

   Meu filho e minha nora enviaram mensagens de agradecimento pela ajuda com as crianças.
Mas quais eram as crianças a quais eles se referiam?

  Sem conseguir ler uma frase, sem escutar bem o que me era falado e sem conseguir botar som nas minhas palavras, só me restara fazer mímicas e brincar. E eu brinquei muito mais que Tiago e Alice.

 Certifiquei-me que estava pronta para a chegada do meu neto. 

  Portanto, chegue logo Eduardo pois sua avó já se permitiu ser criança de novo.


06/10/2015

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