sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Crônica: Do verão e do meu pai



Tenho acordado por volta das cinco e trinta. Antes do despertar do meu celular (que saudades do trimmmm dos relógios de antes!). O calor intenso, o avançar da idade, as terríveis apneias e os atuais deveres de dona de casa são os responsáveis por este sono em uma só etapa. Não me importo em acordar cedo. Sempre gostei de assistir o amanhecer. A vida recomeçando a cada manhã e o frescor da natureza perfumando meus pensamentos valem a mudança. 

Esta manhã não foi diferente. O calor insuportável me acordou mais uma vez. Às cinco e meia o sol já despontava. Em trinta minutos realizo os afazeres necessários no entorno do meu chalé. O pior momento é a vassoura de piaçava em minhas mãos. Ela dança e não aceita o meu comando. Ciscos pra lá e prá cá. Prefiro usá-la apenas quando viro bruxa e faço voos rasantes pelas montanhas. Sempre fui uma esculachada dona de casa. Prefiro os livros e as melodias.

Mas, nesta semana, dois acontecimentos me chamaram a atenção. A entrada do verão na madrugada do dia vinte e dois de dezembro, exatamente a 01:19h e, neste mesmo dia, meu pai faria cem anos. O primeiro fato me causa irritação. Não gosto do verão e seus calores infernais. O segundo me deixa cheia de saudades. E comecei toda esta história para falar dele.

Meu pai, portanto, nasceu no dia 22 de dezembro de 1919. Morreu poucos dias antes de completar noventa e seis anos. Obviamente que a festa para toda a família já estava encomendada. Uma dissecção de aorta abdominal o matou em setenta e duas horas. Tabagista desde os onze anos de idade contava entusiasmado que tinha um pulmão “limpinho”. Não era bem assim. Sua trama pulmonar já estava toda comprometida. Mas estas coisas não interessam. O que conta são suas aventuras contadas e recontadas ao longo de sua vida.

Nasceu em Rio Espera, uma cidadezinha do interior de Minas Gerais, localizada na Zona da Mata Mineira. Quinto filho dos nove de minha avó. Recebeu o nome do famoso almirante inglês que derrotou Napoleão Bonaparte na batalha naval de Trafalgar entre França e Espanha contra o Reino Unido que saíra vitorioso, em 1805. Não sei se minha avó sabia disso, mas, provavelmente, o nome Nelson, havia virado moda depois que as noticias chegaram ao longínquo Brasil.

E o menino fez jus ao patrono de seu nome. Desde jovem, além de sua beleza física que lembrava os europeus, havia também a inteligência e as estratégias nas brincadeiras que o levavam sempre às vitórias.

Um dia foi vender geleias de mocotó que minha avó fazia para aumentar a renda familiar. Algumas caíram na estrada. Ele limpou-as e resolveu ir vendê-las ao padre. Mais tarde, quando a mãe encontrou com o padre, este comentara que as geleias estavam deliciosas, principalmente aquelas com a canela em pó sem cheiro.

Foram tantas as travessuras que a mãe resolvera, depois de várias tentativas, entrega-lo ao filho mais velho que já casado fora morar em outra cidade. Se o rapaz não consertara pelo menos apaixonou pela música e pela flauta. Tornou-se um grande musicista, chegando a transcrever partituras para diversos instrumentos musicais. Afinava violões e pianos e tocava vários instrumentos de sopro.

Contava ele que, no dia marcado para noivar minha mãe na vizinha cidade de Brás Pires, deveria fazer um concurso do Banco do Brasil em Belo Horizonte. Pediu ao irmão de nome também inglês, Vitório, (teria esse nome sido também moda na época em homenagem à vitória inglesa na referida Batalha de Trafalgar ou pela Rainha Vitória?) para viajar até lá e, em seu nome, pedir a mão da amada. E assim foi.

Dizia sempre que nos dois anos e onze meses de noivado viu a moça apenas três vezes. Casaram-se no dia 22 de maio de 1947 defronte o oratório de São José do Porto na fazenda do mesmo nome onde morava com toda sua família de descendência italiana. Maria José era a primeira filha mulher. O irmão mais velho, José Maria, já padre, oficializou o casamento. Desde então um dos quartos da fazenda ficaria conhecido como o “quarto de Nelson e Mariinha”. O mais bem localizado e maior quarto da fazenda. Duas grandes janelas voltadas para o norte e outra voltada para o oeste. A frente uma várzea que encontrava com o céu.

Lembro que minha mãe era uma mulher calada, às vezes solitária, às vezes exuberante e que meu pai estava sempre bem humorado. Tudo eram motivos para se divertir. Dizia que era a cabeça da casa e que minha mãe era o pescoço e que ele só ia para o lado que o pescoço virasse.

Amava e respeitava a todos. Quando mudamos para Lafaiete no início dos anos sessenta, ele recebia com a mesma alegria em nossa casa todas as pessoas que nos visitavam ou passavam por lá em direção à capital, Belo Horizonte. Viravam noites contando piadas, relembrando outras épocas.

Em tempos de vacas magras meu pai colocou os filhos menores para trabalhar. Levar marmitas para o Morro da Mina (extração de manganês), limpar uma sapataria, vender pães num balaio pelas ruas afora. Nós, as filhas, éramos poupadas do trabalho externo e ajudávamos a mãe nas tarefas domésticas. Foi então que aprendi a lavar roupas e me encantei com os processos de esfregar, quarar, enxaguar e torcê-las. E me encantei muito mais com as lavadeiras na distante fontinha de pedra onde elas lavavam muitas trouxas para as famílias que podiam pagá-las.

Se minha mãe ditava as ordens da casa meu pai desditava e brincava. Entretanto exigia que estudássemos. Dizia que não tinham bens para nos deixar de herança e que nos deixaria nossos estudos. “Conhecimentos ninguém tirarão de vocês e não ocupam espaços” argumentava ele. Formou todos os filhos exceto uma das filhas que preferiu se casar mas que iria se formar mais tarde.

Quando o filho mais velho teve um enfarto fulminante aos quarenta e um anos, minha mãe bastante debilitada por um CA pediu que levasse flores e meu pai comandou toda a cerimonia fúnebre. Enquanto uma das corporações musicais entoava uma música meu pai cantou para despedir do filho. E ele cantava muito bem.

Passados alguns meses minha mãe também faleceu. Meu pai ficou só na casa que construíram com tantas dificuldades. Os netos, acolhidos para estudar, haviam formado e ido embora. Agora era só ele e suas tristezas.

Aos setenta e nove anos ainda guardava no corpo a beleza da juventude. Nos olhos azuis, a partir de então quase sempre encharcados, ainda brilhava a docilidade paterna. Amava receber seus vinte e dois netos, alguns poucos bisnetos, genros e noras. Dizia que era uma alegria quando todos chegavam e um alívio quando iam embora.

Um dia ele também foi embora.

Meu pai era assim e muito mais.










4 comentários:

  1. Que linda crônica Rivelli, parabens!

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  2. O^saudade do tio Nelson. Não sei se você sabe, mas ele, Tieta, tio Márcio e tio Marcílio tocaram no meu casamento em Congonhas. Casei-me ao meio-dia, na igreja do Bom Jesus, tão linda que não se podia colocar nenhuma decoração, além daquelas feitas pelas mãos tortas do mestre Aleijadinho. Pois é, havia uma noiva de Brasília que viera se casar na mesma igreja e no mesmo dia. Ao ouvir meu quarteto tocando, resolveu dispensar os músicos que trouxera do Planalto e contratar os que tocaram para mim( diga-se que nem ensaiar eles ensaiaram). Educadamente, os quatro recusaram o convite. E a música continuou sendo sempre a paixão, nunca o trabalho.E essa paixão ficou patente quando ele mandou soldar no lado direito do bocal de seu instrumento, um pedaço de metal que lhe permitia tocar, apesar da paralisia daquele lado da face. E eu sempre disse para ele que, se algum dia eu patrocinasse qualquer evento musical, o troféu seria como aquele bocal modificado. Grande tio Nelson! Saudades.

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  3. Não conhecia essa história do seu casamento em Congonhas. Quanto ao bucal adaptado trouxe-o comigo uma vez que não fora uma peça querida no inventário de seus pertences. Quando vir na minha casa o verá. Ok? Abraços prima tão sábia.

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