quarta-feira, 1 de abril de 2020

VIAGENS IMAGINÁRIAS

(Delicadezas em tempos de Coronavírus - VIII)

Do terraço da nossa casa
No alto da cidade de
Queluz de Minas
(Conselheiro Lafaiete)
Realizo longas viagens

Olho para o leste
(e eu amo o nascer do sol)

Atravesso Catas Altas da Noruega
(desvio uns quilômetros para almoçar com minha irmã em Lamin)

Passo por Piranga, Porto Firme, Viçosa,
Dou um pulo em Ervália
e beijo minha afilhada

Tomo o café das montanhas em Martins Soares
Sigo para Realeza,
Venda Nova dos Imigrantes
Ouço os amores do Frade e da Freira petrificados.
As placas de Brejetuba e Brejaúba divertem a mim e meu neto
que vamos nos esbaldar nas areias escuras da praia do Morro
E dormiremos exaustos ao som das ondas

Do terraço da nossa casa
No alto da cidade
Realizo longas viagens

Olho para o oeste
Sinto uma pontada no peito
(tudo por ali me é desconhecido)
Mesmo assim embrenho na minha viagem
Em Lagoa Dourada
como o tradicional rocambole
Atravesso São Paulo,
São José do Rio Preto
Chego ao Pantanal, ao Buraco da Araras
Mato Grosso do Sul
Arranho o norte do Paraguai
(não compararei quinquilharias,
mas abraçarei, respeitosamente o povo paraguaio, talvez pedir desculpas)
Encanto-me com o chaco boliviano,
lembro-me do grande general Sucre
E, para ver as águas profundas do Pacífico,
busco coragem
e atravesso o deserto de Atacama

Do terraço da nossa casa
No alto da cidade
Realizo longas viagens
Olho para o sul

Logo estou em Barbacena
Desço, nostálgica, a Serra da Mantiqueira
Talvez entre em Cabangu
Certamente subirei o Morro do Cristo
De lá verei toda minha Juiz de Fora
Parque Halfeld,
rua Halfeld
Avenida Rio Branco
Academia Cristo Redentor
(aqui estudei, com bolsa, meu terceiro ano para o vestibular)

Estou chegando de novo
no charmoso Museu Mariano Procópio
passeio com Dom Pedro II pelos jardins da casa

Depois descerei pelas encostas da Serra do Mar
entre os perfumes da Mata Atlântica
subirei por Itaipava
tomarei um tinto seco
com minha colega cigana (médica antroposófica)

Chego em Copacabana
E mergulho nas praias do Rio de Janeiro

Do terraço da nossa casa
No alto da cidade
Realizo longas viagens
Olho para o norte

E logo vejo o Belo Horizonte
Pego minha amada BR-040
Sete Lagoas
(antes terei lido, na estrada, Bairro Franciscadriângela)
Meus olhos viajam com os jagunços de Guimarães Rosa
Curvelo, Corinto, Boacaiuva,
Em Montes Claros dançarei ao som da valsinha de Godofredo Guedes

Cheguei em São Francisco, Januária,
Em Verdelândia encontro Frei Agnaldo e sua bondade
Continuarei subindo
Agora, montada no Benjamin Guimarães de outros tempos
Tô na Bahia de todos os santos
Bom Jesus da Lapa me abençoe.

São Raimundo Nonato
Aqui quero ver as artes rupestres,
as riquezas e belezas naturais das serras
e chegar em Teresina, a princesa do nordeste.
Mas no delta do Parnaíba
não dormirei
Ficarei ali por toda a madrugada
Só para ver as águas doces do Rio beijando
O mar do Piauí

Do terraço da nossa casa
No alto da cidade
Realizo distantes viagens

-desce daí menina e vem estender as roupas!

É minha mãe
me acordando dos sonhos
de primeiro de abril.



1° de abril de 2020

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