terça-feira, 7 de outubro de 2014

CARONAS EM DIAS DE FESTA DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO

                           


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Morávamos em repúblicas diferentes naquela época, embora sempre estivéssemos juntas. Tínhamos um laço mais que de primas, éramos grandes e inseparáveis amigas. E muita cumplicidade havia entre nós. Eu cursava o primeiro ano de medicina numa universidade federal e ela estudava psicologia numa faculdade particular.
   Era chegado outubro, o mês da festa do Rosário na minha terra natal, uma pequena cidade, também localizada na Zona da Mata Mineira. O acesso viário era muito difícil, além de estar a quase 200 km de onde estudávamos. As estradas eram de terra, precárias e não havia linhas de ônibus para lá. Mesmo que houvesse tais transportes, não seria possível viajar neles uma vez que não tínhamos dinheiro. Entretanto, quanto maiores as dificuldades, maior era nossa vontade de ir àquela festa tão esperada pelo gentio de lá e pelo gentio ausente.



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Lucinha nem dormiu na semana anterior à nossa viagem. Decidimos ir de carona. Havíamos combinado tudo. Eu já era mestre em pedir caronas, sabia quilometragens entre as cidades, quais carros fariam os percursos mais rápidos, quais entroncamentos seriam mais fáceis para a próxima carona, quais assuntos abordar e por ai afora. Minha prima ficava admirada da minha sabedoria e só ficava ao lado, atenta a tudo.

  Bem, naquele ano a festa era especial não só para mim. O dia da padroeira, 7 de outubro, cairia no domingo e eu estava enamorada de um moço. Fiquei sabendo, não sei como, que ele estaria no ônibus alugado pelos conterrâneos que moravam em Santo Amaro. Ele já morava em São Paulo há alguns anos. Eu o achava muito bonito e inteligente. “Um bom partido”, como era costume dizer.


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  O sol já ia alto e ainda não tínhamos percorrido nem a metade. A fome dava no estômago. Alguns motoristas nos deixavam no meio do nada. Continuávamos andando a pé, procurando frutas nas cercas, bicas d’água, uma venda... Os olhos sempre fixos na estrada. “De vez em quando minha prima me lançava um olhar e perguntava:” tá longe ainda?” Eu, dona de mim, continuava na  habitual tranquilidade de especialista em geografia e em caronas.

  Mochilas nas costas, pão com manteiga e alguns trocados para o retorno até as repúblicas considerando que voltaríamos de carona até bem perto. Lá vamos nós nas primeiras horas da manhã de um sábado. 


  Lucinha, uma menina criada para ser princesa, ficava rindo de nervoso e eu tomava as rédeas de nossa aventura. Decidi que pegaríamos o trevo novo em direção a Ubá, bem distante do centro da cidade. Ali passavam mais carros naquela nossa direção. Dito e feito e logo já estávamos dentro de um confortável veículo automotor.

  Os motoristas admiravam o fato de sermos universitárias e acabavam sendo simpáticos, às vezes ofereciam um café ou, até mesmo nos levavam a pontos estratégicos para as próximas caronas. Afinal a cidade era longe e, quando mais afastávamos da grande cidade, mais escassas ficariam nossos prováveis benfeitores. 



   A festa na minha cidade já devia ter começado naquela manhã. Eu adorava ver a dança dos congadeiros e ouvir aquele ritmo que retumbava no coração. Certamente N Senhora do Rosário não iria faltar conosco. Eu não parava de andar. Já havíamos passado por Tabuleiro do Pomba e por Rio Pomba . Ubá estava próximo. Logo estaríamos na estrada de terra. O asfalto ficaria para trás.

  Faltavam ainda 70 quilômetros. Estávamos chegando próximo a um trecho de serra, um pedaço da Mantiqueira. De um lado o barranco e, do outro, despenhadeiros. Eu olhava aquele nosso próximo desafio. Nenhum carro aparecia. 


  Ainda estávamos numa baixada quando, de repente, aparecem na nossa frente abelhas africanas enxameantes. Eu tinha certeza que eram africanas. O zumbido ensurdecedor e a nuvem negra dominava toda largura da estrada. Nas margens, apenas árvores e cercas. E agora? Então apelei a Nossa Senhora do Rosário, dona da festa e minha xará. Voltamos correndo no sentido contrário da nossa viagem, desesperadas. Eis que, por milagre da minha apelação, surge lá um fusquinha branco todo empoeirado.


  Nós duas pulamos na frente do tal veículo e pedimos socorro. A mulher do moço fez cara de pouca conversa. Só queríamos atravessar aquele perigo.  Esqueci de dizer que eu já era alérgica a picadas de inseto. Nem me fale de uma abelha africana. Atravessarmos aqueles temíveis insetos. Havia abelhas em torno de todo lado o carro. Passados o susto e a cara feia da mulher do homem, descemos do carro junto com nosso estômago que agora já devorava o delgado. 


  Ainda faltavam duas cidadezinhas, Divinésia e Senador Firmino, antes do nosso destino. Apenas 40 km. Carro de boi, cavalo, charrete, agora pegaria qualquer trem que andasse naquela direção.

  Enfim chegamos em Brás Pires. Pedi minha tia e madrinha que nos acolhesse na casa paroquial. Ali ela ditava todas as ordens dos preparativos para receber os padres e vários políticos importantes, onde os primeiros enriqueceriam as cerimônias religiosas e os segundos trariam prestígio. 


  Eram aguardados mais de quarenta convidados para as refeições e alguns, os mais importantes, também hospedavam ali. Havia muitas cozinheiras e arrumadeiras, devotas de Nossa Senhora, que faziam aquilo em fervor e um cantinho garantido no céu.


   Meu Tio era o Padre anfitrião daquela grande festa.


  Acomodadas num dos quartos debaixo da casa, matamos a fome com muita quitanda com café e nos colocamos à disposição da minha tia para algum serviço. Então saímos para a rua. Era nas ruas que tudo acontecia. Era preciso não descuidar dos arranjos para as caronas da volta. Eu preocupava e me ocupava com tudo.

  Muitas pessoas andavam nas poucas ruas e se apinhavam na praça da minha cidade. As pessoas rezavam e entoavam hinos religiosos numa demonstração de fé. As cores fortes vestiam as rainhas e suas princesas nas procissões, reinados e coroações. O som e as danças da Guarda do Congo eram o que eu mais gostava. Imaginava aquele país tão distante coroando seus reis e suas rainhas negras em meio aos batuques dos tambores.

  Mas tinha também o moço que tanto eu queria ver. Onde ele estaria? Se eu era sábia para as viagens, minha prima era pura esperteza nos namoros. Lá estava ela já em prosa com um rapaz e me trazendo notícia do Bento. “Ele veio sim e está na casa do tio dele”. Meu coração acelerou e pude sentir meu rosto quente.

  A noite chegou trazendo mais encontros das pessoas que continuavam chegando de cidades próximas ou até mesmo retardatários de São Paulo e do Rio de Janeiro. E pequena não fora aquela noite para tantas outras festas, outros ritmos musicais e muitos namoros. Havia jovens para tudo quanto era gosto. Ríamos, cantávamos e rezávamos também. Nada estragaria aqueles encontros. Os amores estavam no ar e abençoados por Nossa Senhora. A noite já ia alto e logo começariam a chegar os homens para a adoração do Santíssimo.

  E a madrugada chegara muito depressa. Decidimos esperar a alvorada, quando a banda local com seus músicos geniais, entoavam hinos e louvores a N. Senhora na praça da matriz.

  Aos poucos eles iam chegando com seus instrumentos e se colocavam em frente à casa paroquial. Começado o som metálico daquela banda da minha cidade, os lá de dentro abriam as janelas para a saudação. Jamais esquecerei aquelas cenas. Todos os integrantes daquela corporação musical eram conhecidos. Meu pai sempre fora um deles e desfilava garbosamente para orgulho dele e de todos nós.

  Findada a alvorada era hora de voltarmos para nossas acomodações. Chamei minha prima e, sorrateiramente, entramos na casa do Padre. O café logo seria servido. O sol acabara de nascer. Era necessário sermos bem discretas, se possível nem sermos vistas. Afinal ali era uma casa santa onde também estavam meus pais. E minha tia que não era nada fácil.

  Subimos a escadaria de madeira, pé ante pé e, logo na grande sala do café, encontramos minha Tia com sua calmaria e um sorriso.
Tomei-lhe a benção e ela nos disse:

  "Vocês levantaram cedo. Tomem o café e vão para a cozinha. Tem lá um saco de batatas para vocês descascarem e picarem pra maionese do almoço”. 


  E foi para lá que nos dirigimos.



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Betim 26 de fevereiro de 2014

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