quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Carta para um amor. VII


Esta carta foi escrita em resposta à Carta VI.



Carthage, 20 de janeiro de 2018. 

Minha amada

Como está você?

Espero encontra-la feliz e com boa saúde.

Às vezes me pergunto se ainda traz os sonhos dos nossos tempos? Ou se ainda carrega consigo os sorrisos ingênuos de sua adolescência? Ou se tem ainda a beleza no corpo? E se os caminhos ainda tem o perfume de suas mãos? Por onde anda minha jovem amada dos tempos idos?

Ainda guardo comigo todas aquelas cartas do tempo em que fora possível nosso amor. Ler você nas entrelinhas tem sido meu maior consolo.

Ainda posso ver os presentes escolhidos nas noites de natal. Bonecas. Bonecas de pano com vestidos coloridos e cabelos trançados. Ver a alegria em sua face carregando o embrulho das bonecas me tornava mais digno mediante a miséria social e política do nosso país em crise.

Instigar você na leitura de Emile Zolá e discutir sobre os amores em tempos sombrios me trouxera uma felicidade indescritível.
Como nos amamos tanto! Onde foi que deixamos de lado nossas vidas? Onde nos perdemos?

Se fecho meus olhos ainda posso ver você descendo a ladeira para nossos encontros furtivos. Eu no meu carro, de cor meio ocre, meio rosa. Desacelerava. Parava o tal corcel. Desligava o motor. Não perderia um só movimento do seu corpo que tanto desejo me causava. Ficaria ali toda uma eternidade para que não se desfizesse o encanto. E nossos encontros nas noites da minha cidade sempre foram de tenros prazeres e de muitas conversas. E nossos corpos diziam por nós. Saía cedo na manhã seguinte para não despertar você e, obviamente, não ter que dizer nada. Quantas palavras queria lhe dizer...

Agora envelheci. Perdoe-me porque envelheci mais que a cronologia dos tempos. Perdoe-me porque envelheci mais do que fora necessário. Fui parceiro do meu envelhecimento uma vez que a covardia não me permitiu sobreviver ao meu amor por você. Fiquei à margem da vida. Apenas observando a passagem dos anos e dos amores.

Jamais me importei com a barba grisalha nem com os cabelos ralos. Resignei-me ao tempo. Enamorei-me do tempo. Enchi meu tempo de nada. Tudo foi em vão. Excesso de trabalho. Excesso de estudos e projetos. Só não queria me deixar enamorar-se de você. Tive medo de, ao me aproximar, eu pudesse quebrar todo o encanto que sentia por ti.

Casei uma, duas, tantas vezes. Fora necessário construir outras de você. Todas me fizeram um homem. Apenas eu não fora um homem para mim. Tinha um corpo de homem. Uma voz de homem e desejos de homem. Mas fora um homem fraco.
Eu precisei das mulheres, precisei dos amores das mulheres; precisei ouvir os sussurros dos orgasmos das mulheres. Eu precisava estar vivo para jamais te esquecer.

Minha amada: digo-lhe que viajei pelo mundo. E, em cada canto, procurei por você. O temor de te encontrar fazia-me vagar sem alma. Perdia minha alma cada vez que suas lembranças arrebatavam meus pensamentos. Então meu corpo vagava esvaziado de mim.

Não tive filhos. Não os quis. Eu me bastava. Não caberia comigo nada mais que minha solidão. Mas procuro pelas ruas os filhos que teria com você. Queria nossos filhos para lhes ensinar os passos, as palavras, o plantio e a colheita dos afetos pela vida. Queria nossos filhos para sair de dentro de mim e me ver através deles.

Não tenho casa. Não construí minha casa. Edifiquei um castelo. Um castelo assombrado. Belo. Muito belo. Todo meu dinheiro ali foi deposto. Teria construído nossa casa. Mas construí um palácio para que ninguém pudesse habitá-lo. Apenas o imaginário de fora dos muros habita meu palácio.

Quantas saudades tenho de ti minha amada menina.
Agora, com o peso dos anos, meu corpo pede sossego, aconchego e tranquilidade. Meu corpo que circula pelas ruas tentando ir ao seu encontro. Entretanto, se vislumbro tal possibilidade, volto e me embrenho por outros caminhos. A presença de ti me causaria todas as dores que evitei no meu paraíso terrestre. A presença de ti me desnudaria diante de um espelho cujos reflexos só viriam até mim.

Onde anda minha amada? Entretanto não ouso saber. Saber de ti seria minha prisão com toda a liberdade do meu corpo. Ficaria refém dos meus próprios desejos. Portanto não posso desejar você. Posso apenas desejar que me desejem pois assim seria tão só o instrumento do desejo.

Estou no paraíso construído para me abrigar do inferno que um dia ousei desejar. Ou estaria eu no inferno construído para me proteger do paraíso que um dia ousei desejar?

Faz-se as horas. Delongam-se os dias. Envelhecem-me os anos. Eu fico mudo temendo ainda os sofrimentos que viriam caso eu te encontrasse. Certamente acabariam as dúvidas do meu viver. Então do que viveria eu? Se a certeza do seu amor assolasse à minha porta eu perderia meu palácio. Perderia minha vida para viver a sua vida. Então eu seria você. E a quem eu iria amar senão a mim mesmo?

Oh minha amada!
A angústia do que fazer com este amor corrói todo meu velho corpo e flagela minh’alma já muito castigada.

Ainda agora ouço os sinos da igreja onde repousam meus pedidos de misericórdia. Posso sentir o perfume da mirra espalhada sobre os piedosos e crédulos do Senhor.

Responda-me por favor. Poderia eu amar você sem deixar me perder em ti?


Rogo ao meu Senhor que tenha piedade de nós.

                  Seu eterno apaixonado.

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