quinta-feira, 16 de abril de 2015

CRÔNICA: AQUELAS E OUTRAS PEDRAS




Voltei aos meus plantões na urgência psiquiátrica de um grande hospital público de Minas Gerais. Minha aposentadoria não se dera conforme esperava e fui orientada a repensa-la. Repensei algumas vezes e decidi cumprir mais algum tempo até um novo enquadramento nos tais planos de carreira que eu tão displicentemente deixei pra lá.

Agora estou eu cá fazendo mais 24 horas de um tranquilo plantão de final de semana. Embora eu preferisse estar noutros lugares. Mas gosto do meu trabalho e tenho consciência da importância dele dentro da proposta da assistência às pessoas portadoras de sofrimentos mentais, do Ministério da Saúde. Não nego um grande orgulho de participar de tão ousado projeto.

Não quero falar do trabalho, às vezes árduo, dos atendimentos e seus desenlaces. Mas quero falar daquilo que deparamos e apuramos na arte da clínica da loucura do nosso dia a dia.

E é de uma dessas cenas, ocorrida há alguns dias, que agora escrevo.

Viera dos grotões de Minas um homem que não quis saber da conversa comigo. Virou quase de costas a demonstrar total desinteresse por sua interlocutora e suas perguntas. Por volta de seus sessenta anos, apresentando também descaso com seu corpo já envelhecido e um pouco debilitado, manteve-se alheio a tudo em torno.

A irmã, ainda muito jovem, estava ao lado, calada. Perguntei o que houve com seu irmão uma vez que ele retornava de uma internação no Hospital de Pronto Socorro João XXIII, tendo sido encaminhado para lá pela equipe médica daqui. Ela se limitou a informar que as radiografias estavam sobre minha mesa mas que nada havia sido feito por seu irmão naquele grande hospital de urgências neurológicas, traumatológicas e cirúrgicas .

Se aquele se recusou a falar comigo, esta se limitou a dizer nada.

Olhei as radiografias e pude notar que havia vários corpos estranhos no interior de seu intestino. A irmã apenas negou que houvessem retirado tais corpos e que lhe informaram que os mesmos estavam caminhando dentro das alças intestinais e que seriam eliminados. A enfermagem que ficasse atenta.

Calei-me e assim fiquei por alguns instantes.

Ela me olhou e arriscou a pergunta.

- Posso falar do meu irmão para a senhora ?

Claro que pode. Era tudo que eu queria ouvir.

Ela então se emocionou e falou de um irmão amigo, companheiro, feliz, bom filho e "um excelente lapidador". Suas pedras tornaram-se famosas pela beleza e chegaram a ser exportadas. Nesse tempo estava com seu casamento marcado com a moça que escolhera e amava. Então a noiva apareceu grávida, " de gêmeos " e ele começara a ficar sem dormir, ficara estranho e perdera o apetite. Distanciara da noiva.

Passado algum tempo suas pedras começaram a desaparecer. A família procurou e questionou o sumiço daquelas raridades. O jovem noivo passara a engolir suas pedras tão bem lapidadas. Passado mais algum tempo ele começou a engolir aquelas ainda em seus estados brutos e, mais tarde, quaisquer pedras ao seu alcance. Hoje ele engole o que ver pela sua frente como frascos de perfumes, pilhas, vidros, chaves,etc.

Fui embora pensando neste homem a engolir preciosidades para tentar obstruir o buraco deixado por outra preciosidade, sua noiva e os filhos gêmeos de um outro homem.

Concluo que não haverá pedras no mundo suficientes para tamponar esse vazio deixado lá. Entretanto, quando ele assim o faz, parece que ele próprio se engana e melhora por algum tempo até serem expulsas de seu corpo. Até serem defecadas.

A irmã chora muito pelas lembranças daquele irmão artista.

Pergunto se poderia publicar a história dele, ela assentiu e acalmou diante da possibilidade de ver mais uma vez seu irmão enlaçado numa arte. Agora a literatura.

Nesta noite, alguns plantões depois daquele, fui chamada para avaliar um homem que apresentava pressão alta. E lá estava nosso lapidador que mais uma vez me ignorou quando lhe dei " boa noite".

Será que eu, enquanto mulher, também faço parte do rol das mulheres em que uma delas lhe traiu ? Vá saber...

Enquanto lembrava da história desse homem, um dos meus colegas da enfermagem me lembrou de um outro fato que eu jamais esquecerei.

Era uma tarde de sexta- feira e nós, de plantão, tínhamos vários atendimentos e decisões a serem tomadas. Enquanto digitava anotações no prontuário eletrônico deixei a porta do consultório aberta. Eis que Ronaldo, um jovem técnico de enfermagem e talentoso professor das danças típicas latino americanas, sapateava no corredor de um lado para outro a falar no celular. Não pude deixar de ouvir o que dizia:

-É verdade ? Ocê tá dizendo que está armando um temporal pelo lado de Betim e que as nuvens carregadas estão vindo para cá? Com chuva de granizo?!!!

Assustei, larguei minhas anotações e fui ligar para minhas filhas. Era preciso que elas se cuidassem e fechassem bem as janelas e portas do nosso apartamento. Afinal nós morávamos em Betim. Corri e tirei meu carro que estava estacionado sobre as centenárias paineiras do pátio do hospital. E fiquei esperando um dilúvio com muitas pedras.

Até hoje continuo esperando por tal temporal de pedras de granizo pelas bandas de Betim em direção a Belo Horizonte.

Era só uma brincadeira.

Meu colega fizera aquilo apenas para descontrair nosso estressante trabalho naquele dia. E eu, ainda hoje, continuo rindo ...

Pode-se constatar que há muitas pedras de granizo e outras tantas pedras preciosas no nosso trabalho...

Quem tiver ouvidos que escute-as.


12/04/2015

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