Meu irmão já havia planejado nossos passeios. Um deles seria a travessia, por lanchas, no canal marítimo entre a ilha de Cananeia e a Ilha do Cardoso. Havia me informado que esta última tem seu mapa lembrando o mapa do Brasil. Mais tarde ganharia um panfleto onde pude constatar a semelhança. Ali está localizado o Núcleo Perequê e toda área marítima é chamada de Santuário dos golfinhos. Vimos muitos deles saltitando bem perto de nós. Segundo explicações científicas ali teria alimentos fáceis para os filhotes e eles estariam protegidos dos grandes predadores. Toda a área faz parte de reservas ecológicas da Mata Atlântica e o guia, que nos fez lembrar indígenas, mostrava-se muito orgulhoso de nos apresentar seus espaços preservados, seus projetos e estudos do boto-cinza, como são chamados os golfinhos. Ouvi dele e de outros guias, que aquela imensidão de canais de água salgada constitui a maior área “marítima abrigada” preservada de todo mundo. Só no depois é que iria entender tratar-se de águas marítimas protegidas por ilhas, não a mar aberto. A importância de tal nomenclatura também está nas embarcações o que, até então, não havia entendido.
Pois bem, apesar do sol e do intenso calor não declinei do desejo de fazer a trilha do Manguezal e Mirantes, tudo bem cuidado e protegido. No meio das restingas de areias brancas escaldantes deparamos com um engenhoso sistema de captação de energia solar. O guia nos informou então que, o “Programa Luz para Todos” do governo federal conseguiu levar energia para todos os moradores da ilha trazendo conforto e possibilitando guardar os pescados para serem vendidos na cidade de Cananeia. E mais adiante fomos surpreendidos com uma moderníssima instalação para duzentos pesquisadores e estudantes das universidades federais do Brasil. Moradias, refeitórios, centros de pesquisas, museu arqueológico e um pequeno anfiteatro. Sempre, nestes momentos, meu coração bate mais acelerado. Ver tudo aquilo numa ilha quase deserta. O cuidado com o meio ambiente. Pesquisadores. Tudo ao lado de poucos moradores, incluindo comunidades caiçaras, vivendo, harmoniosamente, com o meio ambiente em extrativismo sustentável.
Caminhamos por uma passarela, cuidadosamente feita de madeira, por sobre o manguezal onde os caranguejos ficavam chafurdando na mistura cinza escuro de água e material orgânico. Paramos para vê-los soltando borbulhas e caminhando na peculiar lentidão. Observei que, apesar de eles saírem daquela lama, saem limpos e brilhantes. Alguns com vermelhos vibrantes. Mais uma pequena caminhada na trilha e sentimos o frescor da Mata Atlântica. Entramos para ver o museu de antropologia, com esqueletos de golfinhos, outros peixes e tartarugas marinhas, utensílios usados pelos povos que ali viveram há cinco mil anos- os sambaquis - e a história da formação daquele parque estadual.
Além dos muitos quilômetros de praias desertas há por ali rios e cachoeiras. Infelizmente não consegui chegar até a voz do riacho de águas escuras cristalinas. O cansaço e o calor me fizeram dar meia volta para o quiosque onde se encontrava a turma restante. Minha filha sempre ao meu lado a me amparar caso fosse necessário.
Entrei no mar de águas mornas protegidas das marés com blusas UV, viseira e muito filtro solar. Ali não havia como furar ondas mergulhando sob elas. No dia anterior eu já havia furado muitas delas. Como nosso pequeno anjo Gabriel também sou do elemento água. Acho que já nasci nadando.
E chegou a hora de voltarmos para nossa pousada na ilha de Cananeia. Pegamos as lanchas previamente contratadas – tudo organizado de acordo com os protocolos da marinha e dos regulamentos do parque da ilha do Cardoso. O número de turistas é limitado como mais uma forma de proteger todo o parque ecológico. Foi aqui que fiquei atenta para não perder nem uma palavra do piloto. José aproximou de uma ponta de praia e nos pediu que olhássemos à direita. “Ali é a ponta mais sul da ilha Comprida” e nos ensinou como chegar, por terra, até ali. "Depois que atravessar a balsa vire a segunda rua a esquerda, vocês vão encontrar um restaurante. Peguem uma trilha e vão deparar nessa praia".
Guardei a explicação. Gostaria muito de fazer tal caminhada e explorar mais uma praia deserta. Outra hora nosso piloto-guia parou a lancha suavemente para assistirmos ao espetáculo dos golfinhos saltitantes.
Virou e nos apontou a extrema esquerda, na ilha de Cananeia. Ali naquela casa velha foi construída a primeira fundição de ferro do Brasil. Hoje é um museu”. E muito entusiasmado continuou: Minha mãe foi a única parteira de Cananeia por muitos anos. Ela está viva com 104 anos. Agora olhem ali aquela casa de dois andares no meio da mata, logo adiante da fundição. Aquela casa tem o mesmo tanto de altura para baixo. Ali tem um túnel de quatrocentos metros até a baia.
Era a casa do Martim Afonso de Souza que conheceu a índia ‘Caen’ e se apaixonou por ela ficando por aquelas terras onde passou a chama-la de Cananeia em homenagem à sua amada.
E nosso piloto continuava suas explicações sobre possíveis ataques de piratas quando, através de túneis e mirantes de observação, eram dadas mensagens para a defesa da ilha de Cananeia. (*). Verdades ou mitos não interessa. O importante foi a simpatia do nosso piloto.
Entretanto não me lembrava de ter escutado a história do padroeiro da cidade, São João Batista, também contada por José. Mas no dia seguinte, querendo conhecer o centro histórico da cidade bem defronte à igreja, minha cunhada me repetiu a lenda de que São João Batista, pela manhã aparecia no altar com "os pezinhos" sujos de areia. Teria ido proteger os pescadores durante a noite.
Tudo fica mais emocionante na sua presença, que torna a nossa vivência com detalhes minuciosos do seu olhar vasto e grandioso, contado aqui. Lindo conto!
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